A Pele que Habito (La Piel que Habito)

As cores de Almodóvar já não são mais as mesmas. Se em Abraços Partidos o diretor espanhol retomou alguns de seus temas e cenários da juventude, agora com o novo A Pele que Habito o cineasta parece romper de vez com o seu cinema alegre e multi-colorido e cria um ambiente clean apesar de sombrio, principalmente pela grande atuação de Antonio Banderas, que deixa de lado o bom-mocismo para encarnar um personagem que chega a assustar pela sua obsessão e seu ar quase de um psicopata. Se desta vez a história parece bizarra até mesmo para Almodóvar, não se pode pensar em outro diretor para ela.

O Dr. Robert, um importante cirurgião espanhol, vivido por Banderas, sofre há anos com a morte de sua mulher após um acidente de carro, em que ela teve seu corpo carbonizado. O médico, então, fica obcecado com a ideia de criar uma pele artificial que possa suportar até mesmo o fogo. Afastado de seu trabalho tradicional, Robert vive em uma mansão equipada com um moderno laboratório e centro cirúrgico, onde ele pode fazer seus experimentos. Para isso, no entanto, ele precisa de uma cobaia humana, a bela Vera (Elena Anaya), a quem ele mantém presa.

Trancafiada todo o dia no quarto, a moça tem poucas esperanças de retomar sua vida normal longe dali. Os únicos contatos que tem é com o médico e com Marília (Marisa Paredes), a governanta da casa. Quando o filho de Marília visita o local, Vera tem a chance de saber mais sobre Robert, e percebe que talvez o médico esteja se apaixonando por ela, já que ela é muito parecida com a falecida mulher do doutor. Assim, ela começa a acreditar que ainda pode sair daquele quarto. Porém, o que passou na casa nunca irá sair de sua memória, e mudará a sua vida para sempre.

Se o óbvio seria associar A Pele que Habito com O Médico e o Monstro, Pedro Almodóvar mostra sua maestria ao fazer com que o seu doutor seja, ele próprio, o bem e mal encarnados em uma só personalidade. Robert não precisa de qualquer transformação, ele é humano, com o que de bom e ruim isto possa acarretar. Mais do que à história de Jekyll e Hyde, no entanto, o filme remete a OldBoy, premiado longa sul-coreano de 2003 sobre a vingança, tema que tem importante papel também desta vez.

A obsessão interpretada por Banderas não é sem razão. Almodóvar tem sempre uma explicação para os desvios de seus personagens. No decorrer da história, o espectador percebe como a vingança move as ações não apenas do Dr. Robert, mas de muitos dentro da trama. Assim como OldBoy, também, temos um personagem que é sequestrado e mantido refém de uma forma bastante estranha. Vera não está ali por acaso, está pagando por uma ação do passado, algo que nunca imaginou que pudesse causar tamanha dor a alguém, a ponto desta pessoa lhe fazer passar por tudo o que ela acaba passando.

Perturbador em muitos momentos, A Pele que Habito pode ser definido quase como um terror psicológico, mas de um tipo que só poderia ser filmado por Almodóvar. O diretor, aliás, mostra sua genialidade em deixar o espectador imaginar uma coisa, quando o que ele quer dizer é algo bem diferente, como ele faz com o próprio título da obra, ou na escolha do elenco. Se perdeu o colorido de seus primeiros filmes, o espanhol deixa claro que evoluiu ainda mais em seu trabalho, e que seu estilo pode render grandes obras mesmo que sem a extravagância que lhe deu sua fama.

Assista ao trailer:

A Pele que Habito (La piel que habito, 2011, Espanha)
Direção:
Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya e Marisa Paredes
117 Minutos

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