Archive for the ‘ Biografia ’ Category

O Vencedor (The Fighter)

Há aqueles filmes que só de ver o poster e o título já fica fácil prever qual a história e já se tem a certeza do final. Geralmente acontece com obras de superação, que trazem alguma lição moral em seu final previsível, mas emocionante, e que levam o espectador a pensar sobre os caminhos que a sua própria vida está tomando. Mesmo que O Vencedor, de David O. Russell, se encaixe nesta descrição, o filme ainda traz qualidades que fazem valer a pena ser visto, como a assustadora interpretação de Christian Bale.

Desde pequeno Micky Ward (Mark Wahlberg) teve em casa o melhor professor de boxe que poderia. Irmão do famoso Dickie Eklund (Christian Bale), o jovem aprendeu os macetes de esporte mesmo antes de ter idade para decidir se queria ou não lutar. Depois de adulto, porém, ele não consegue ter sucesso em cima dos ringues. Treinado por Dickie e empresariado por sua mãe, Alice (Melissa Leo), parece que Micky sempre está em uma luta para perder, e já não tem mais disposição de seguir sua carreira.

Mais do que sua família, a mãe e o irmão dominam a vida de Micky. Conhecido por ter nocauteado o campeão Sugar Ray Leonard em um lance duvidoso, Dickie vive como um adolescente com sua turma de amigos, que se preocupam mais em beber ou usar crack do que em ter uma vida condizente com suas idades, que já passam dos 40 anos. Quando Micky conhece a jovem garçonete Charlene (Amy Adams), seu destino começa a mudar. Ao lado dela, ele consegue dizer não para a família e tentar a sorte na carreira por conta própria. Sem os problemas que a mãe e o irmão podem trazer, ele tem mais chances no esporte, mesmo já sendo considerado velho para lutar.

Quando começou a produção, Darren Aronofsky era o nome cotado para a direção. A mudança para Russell se mostrou acertada, já que Aronofsky fez em 2008 seu O Lutador, bastante semelhante com esse. Se em seu filme era mostrada a superação do ator Mickey Rourke, desta vez quem se destaca são mesmo os personagens reais Dickie e Micky, principalmente do primeiro, brilhantemente representado nas telas pelo camaleônico Bale. Difícil imaginar que aquele sujeito magro e debochado é também o atual Batman dos cinemas.

Mesmo sendo coadjuvante, Bale é quem segura O Vencedor e o ajuda a torná-lo um grande filme. Até quem já viu o ator em seus mais diversos papéis ainda se surpreende com o que ele é capaz de fazer com seu corpo e em suas interpretações. Se ele não chega a estar tão magro como quando fez O Maquinista, a forma como vive seu papel lhe dá uma aparência ainda menos saudável. Os mais céticos, que podem achar exagerado o trabalho de Christian, percebem o erro nas cenas finais, em que o verdadeiro Dickie aparece na tela e mostra que não teve nada na atuação que destoe do personagem.

No geral, não há novidades no filme em relação ao que já foi feito antes em outros trabalhos sobre superação, salvo a surreal família dos lutadores, com suas irmãs que parecem saídas da versão norte-americana de algum filme de Fellini. O Vencedor, como o próprio personagem de Mark Wahlberg, parece uma obra de pouca importância, que se mostra fraca, sem chances de se dar bem, mas que apenas está guardando suas energias para dar ao espectador um final triunfante. Clichê, mas triunfante, e que vale a pena ser visto.

O Vencedor (The Fighter, 2010, EUA)
Direção:
David O. Russell
Roteiro: Scott Silver e Paul Tamasy
Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale e Melissa Leo
115 Minutos

O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy)

Quem espera encontrar uma cinebiografia musical em O Garoto de Liverpool pode se decepcionar com o drama familiar do jovem John Lennon (Aaron Johnson), mas o filme de Sam Taylor-Wood traz um retrato sincero do adolescente que sonhava ser um astro do rock. Na obra, em vez do Lennon politizado e centrado, o diretor mostra o jovem que era mais preocupado em curtir a vida do que em ser um profissional como músico.

No longa fica claro o que é perceptível nas gravações antigas dos Beatles mas que se apagou com o tempo. Paul McCartney (Thomas Brodie-Sangster) era o cabeça do quarteto, enquanto Lennon era o coração. Bem antes de encantar o Brasil com seus shows lotados e cheios de energia, o músico rouba a cena já aos 15 anos, com sua determinação em dominar a técnica musical e alcançar o sucesso profissional.

Lennon, no filme, mostra de onde veio o tino para tocar o mundo. Na adolescência, ele mal sabia quem eram seus pais, já que havia sido criado por uma rigorosa tia (Kristin Scott Thomas), que não queria que o garoto fosse mal influenciado pela verdadeira mãe (Anne-Marie Duff). A influência, no entanto, veio assim mesmo. Enquanto Mimi, a tia, ensinava disciplina e música clássica, Júlia, a mãe, mostrava às escondidas sua rebeldia e apresentava ao jovem o que era o rock’n’roll.

Taylor-Wood começa O Garoto de Liverpool brincando com cenas de A Hard Day’s Night, em uma das poucas ousadias estéticas do filme. Tanto na obra de 1964, quanto aqui, John Lennon aparece como uma figura carismática, brincalhona, irreverente. Imagem que se apagou com o tempo após seu engajamento social e o fim dos Beatles.

O grupo não chega a aparecer no filme, que termina no momento de sua criação, em 1960. Nas cenas, Lennon ainda tocava no Quarrymen com Paul, um George Harrison (Sam Bell) que mal se destaca, entre outros amigos. Do historicamente desprezado Ringo Starr, nem sinal, já que ele entraria nos Beatles apenas em 1962. Das canções famosas, também poucas aparecem na trilha, que contém mais obras de artistas como Elvis Presley, ídolo do jovem Lennon.

Sem o lado musical que tornou John Lennon mundialmente reconhecido, o filme ainda tem seus méritos quando mostra a relação dele com suas duas mães, e seus primeiros passos na música. O excesso na carga emocional dos dramas familiares é compensado com a sincera relação entre os jovens John e Paul, além das peripécias do adolescente em seu período escolar. A distribuidora brasileira ainda aproveitou o gancho emocional, lançando o longa próximo às datas em que são lembradas as morte de John Lennon (08/12/1980) e de George Harrison (29/11/2001).

O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy, 2009, Inglaterra)
Direção:
Sam Taylor-Wood
Roteiro: Matt Greenhalgh
Elenco: Aaron Johnson, Kristin Scott Thomas e Anne-Marie Duff
98 Minutos

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