Archive for the ‘ Comédia Romântica ’ Category

O Homem do Futuro

O Brasil nunca teve grande tradição no cinema fantástico, mas esta imagem pode estar mudando com a consolidação do nome de Claudio Torres como um diretor do gênero. Com o lançamento de seu quarto longa-metragem, O Homem do Futuro, o cineasta mostra que não apenas sabe fazer uma grande obra dentro do universo da ficção científica, mas que sabe bem adequar um tema complexo ao público. Não apenas isso, Torres também demonstra uma habilidade de deixar suas obras com uma brasilidade mesmo que com temas recorrentes no cinemão americano.

Em O Homem do Futuro, Wagner Moura é o fracassado cientista Zero, que na falta de uma vida mais interessante, dedica o tempo que tem a desenvolver uma nova forma de energia. Com a certeza de que um dia terá uma descoberta que irá mudar o destino da humanidade, ele pretende não apenas ser reconhecido por isso, mas provar para Helena (Alinne Moraes), o amor de sua vida, que ela estava errada em tê-lo humilhado vinte anos antes, em uma festa da faculdade.

O invento, no entanto, dá errado, e Zero acidentalmente vai parar em 1991, justamente no pior dia de sua vida. Sabendo toda a dor que sofreu por todos estes anos pela rejeição de Helena, ele decide mudar o passado, contando para seu antigo eu não apenas a desgraça que vai se abater sobre a sua vida, mas como será o mundo no futuro, e como se dar bem com todas estas informações. No entanto, o fato de tentar consertar sua vida desencadeia uma série de transtornos que podem piorar ainda mais a sua relação com o seu grande amor.

Se conseguiu conquistar um público considerável com A Mulher Invisível, seu filme anterior, usando este universo fantástico aliado a um senso de humor tipicamente brasileiro, desta vez Torres também traz uma carga alta de romantismo e nostalgia, tendo um resultado ainda melhor. Mesmo com uma atuação pouco natural, o casal de protagonistas, Alinne Moraes e Wagner Moura, emocionam o espectador com a mesma facilidade com que o faz rir. Não distante ficam os coadjuvantes Fernando Ceylão e Maria Luisa Mendonça.

Apesar disso, é de lamentar que o cineasta tenha abandonado a veia mais contestadora de Redentor, seu primeiro longa, e abraçado de vez o cinema de puro entretenimento. Mesmo que o resultado seja bom, superior a grande parte da produção nacional, não rende qualquer tipo de reflexão futura. Com o mesmo tema, a viagem no tempo, o próprio Brasil já produziu o subestimado A Máquina, de João Falcão, também envolto em humor e romance e com um jeito mambembe de filmar, mas com maior poesia e profundidade.

Para ambientar o 1991 de Zero, o filme usa a técnica simples, mas eficiente, da trilha sonora, principalmente com a canção Tempo Perdido, da Legião Urbana, cantada pelos próprios atores. Não apenas no som, mas a direção de arte também opta por alternativas sem qualquer requinte na maior parte das cenas. O resultado acaba se tornando natural e agradável, dando um charme a mais à narrativa. Um dos exemplos é a roupa de astronauta usada por Wagner Moura. Não que ele precisasse dela para a viagem no tempo, mas ele queria estar bem para uma festa à fantasia.

Mesmo que distante das superproduções hollywoodianas de ficção científica, ou de qualquer filme que explora um universo fantástico com um abuso de efeitos especiais, O Homem do Futuro envolve e cativa o espectador. O cinema brasileiro, realizado por Claudio Torres, mostra então que não é preciso gastar milhões de reais para fazer o público acreditar naquilo que se pretende contar. Basta saber criar uma boa história e ter um jeitinho brasileiro para levá-la para as telas, e parece que Claudio não tem dificuldade com nenhum dos dois.


Assista ao trailer:

O Homem do Futuro (2011, Brasil)
Direção:
Cláudio Torres
Roteiro: Cláudio Torres
Elenco: Wagner Moura, Alinne Moraes e Gabriel Braga Nunes
102 Minutos

Amor e Outras Drogas (Love and Other Drugs)

Se em Diamante de Sangue o diretor Edward Zwick denunciou as mazelas causadas pelo irresponsável consumismo da preciosa pedra e pela ganância de grandes empresários, não é em uma comédia romântica que o cineasta vai deixar de fazer sua crítica social. Amor e Outras Drogas também fala deste consumismo e desta ganância, mas desta vez é a indústria farmacêutica que está na mira de Zwick. Com uma visão bem mais leve, o filme também ataca de forma quase tão enfática quanto o anterior.

Apesar de ser de uma família toda ligada à saúde, Jamie Randall (Jake Gyllenhaal) consegue mais sucesso como vendedor. Seu charme e carisma faz com que ele conquiste facilmente seus clientes, o que pode trazer coisas boas e ruins. Demitido de uma loja após se envolver com a pessoa errada, ele decide se voltar à área de atuação da família e passa a ser representante comercial da Pfizer, tendo como missão convencer os médicos a receitar medicamentos da empresa aos seus pacientes.

Ainda engatinhando na carreira, mas com um futuro promissor pela frente, ele é surpreendido por dois fatos que mudam radicalmente sua vida. Primeiro conhece a bela Maggie Murdock (Anne Hathaway), que conquista e logo se apaixona, já que foi a única que não quis uma relação mais séria. Além disso, a empresa em que trabalha lança um novo e revolucionário produto, o Viagra. Conquistador, Jamie não encontra dificuldades em fazer a propaganda deste novo remédio entre os médicos que conhece. Enquanto isso, ele trava uma difícil relação com Maggie, vítima de uma doença degenerativa.

Mesmo que o casal de protagonistas tenha uma boa química nas telas, o excesso de assuntos que o filme trata deixa a trama sobrecarregada. Não se sabe se o verdadeiro intuito da produção é ser uma comédia romântica carregada da carga dramática ou um filme-denúncia contra a agressiva e irresponsável abordagem da indústria farmacêutica. São quase dois filmes distintos que Zwick apresenta aos seus espectadores, que escolhem dar o foco à história que melhor lhe convêm.

Se as vidas de Maggier e Jamie são ligadas pelos medicamentos, não há uma relação clara entre o uso dos remédios por ela e a forma como os representantes e médicos negociam a saúde de seus pacientes. São tramas distintas, apenas com o mesmo tema em comum. Somente em um momento, durante uma convenção de médicos, a moça toma um outro rumo descobrindo formas alternativas de lidar com seu problema. Porém, além de não se aprofundar no tema, o diretor apresenta então uma visão bastante pessimista para a personagem.

Edward Zwick parece não saber como criar uma comédia romântica sem deixar de lado a sua marca de denuncismo. Se o filme tem seus bons momentos, peca em muitos outros pela trama truncada, que parece não levar a obra a lugar nenhum. Fica mesmo a sensação durante todo o decorrer da fita de que se fosse uma comédia romântica e um filme denúncia, ambos seriam muito melhor sucedidos do que sendo apenas um trabalho, que empaca nos momentos de amor e se mostra bastante superficial em seu trato com o mercado das outras drogas.

Amor e Outras Drogas (Love and Other Drugs, 2010, EUA)
Direção:
Edward Zwick
Roteiro: Edward Zwick e Charles Randolph
Elenco: Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway e Josh Gad
112 Minutos

Amor por Acaso (Bed & Breakfast)

Existem grandes atores que se tornaram grandes diretores. Há também os considerados medianos, que detrás das câmeras conseguem feitos extraordinários. Mas, também, tem aqueles que dirigem e o resultado passa despercebido, como pode ser o caso de Marcio Garcia em seu primeiro longa-metragem, Amor Por Acaso, que estreia em 26 de novembro.

Co-produção entre Brasil e EUA, o filme também se divide entre os dois países. Logo no início do longa, a passagem entre as cenas de um cenário para o outro, no entanto, acontece de uma forma tão mecânica que já indica que não se pode esperar muito do resultado final.

Ainda, o que se poderia ter de melhor no filme, que é a boa apresentação do país de Garcia em uma produção dos EUA, é bastante decepcionante. Garcia, em vez de sair do clichê e mostrar o Brasil dos brasileiros, faz o mesmo de tantas produções: mostra belas mulheres de biquíni na praia, ao som de um berimbau.

A trilha sonora também é outro ponto que decepciona em Amor Por Acaso. Apesar de ter um ou outro momento em que a música casa bem com as imagens, em grande parte do filme o que se ouve são canções desinteressantes e sem qualquer personalidade em relação àquilo que se vê.

Há, claro, o que se salve no filme. A história de Ana (Juliana Paes), uma brasileira que precisa ir para a California para tentar reaver uma propriedade que foi de sua avó e agora é de Jake (Dean Cain), consegue envolver mesmo com um roteiro fraco.

Juliana não se compromete e tem uma interpretação convincente, o que em muitos momentos também acontece com Cain. Uma ou outra participação também ajuda a criar o tom envolvente que deve ter uma comédia romântica.

Se o casal se sai bem na tela, o mesmo não pode ser dito do diretor. Em uma decisão infeliz, Marcio Garcia surge em uma cena totalmente fora do contexto após o final do filme, criando um certo constrangimento nos espectadores que ainda continuam na sala.

Este é apenas o primeiro longa-metragem de Marcio, filmado às pressas pela gravidez de Juliana Paes e feito em um idioma que não é o seu. Mesmo assim, os erros são mais visíveis do que os acertos. Assim, mesmo com a presença do astro internacional e a grande estrela brasileira, o filme corre o risco de ser logo esquecido.

Originalmente publicado no Portal Terra.

Amor Por Acaso (Bed & Breakfast, 2010, Brasil/EUA)
Direção:
Márcio Garcia
Roteiro: Leland Douglas
Elenco: Juliana Paes, Dean Cain e Eric Roberts

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