Archive for the ‘ Drama ’ Category

Drive

Na semana após a premiação do Oscar 2012, o público brasileiro tem a chance de notar uma das grandes injustiças cometidas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA. Do dinamarquês Nicolas Winding Refn, Drive consegue fazer uma mistura ideal entre ação e romance, sabendo acelerar e frear nos momentos certos. No elenco, duas grandes estrelas da nova geração do cinema de Hollywood, a bela Carey Mulligan e Ryan Gosling, em mais um de seus impressionantes papeis.

Ryan vive um misterioso motorista, dublê de filmes de ação em Los Angeles. Além de seu trabalho no cinema, ele também aproveita o seu fascínio pelos carros para ganhar a vida em uma oficina mecânica, e usa as suas habilidades no volante como piloto de fuga de aluguel para os bandidos da região. Com a certeza de que pode fugir de qualquer problema quando está dentro de um veículo, ele consegue lidar bem com seus três ofícios, até que conhece sua nova vizinha, Irene, vivida por Carey.

Casada com um presidiário que está prestes a ser liberado da cadeia, Irene vive sozinha com seu filho e acaba sentindo uma atração por aquele estranho homem que se muda para o apartamento ao lado, e parece estar disposto a ajudar em tudo o que ela precisar. Quando o marido, Standart, sai da prisão, o motorista descobre que ele tem uma grande dívida com alguns bandidos, o que coloca em risco a vida da mulher que aprendeu a gostar. Ele, então, decide se unir a seu adversário para resolver mais este problema.

Conhecido do grande público desde que foi indicado ao Oscar por Half Nelson, Gosling mostra a cada filme sua maestria na arte de interpretar. Em Drive, ele mais uma vez se supera na pele deste homem sensível e ao mesmo tempo bruto. Em uma das cenas principais do filme, o protagonista dá o primeiro beijo na amada Irene para, segundos depois, cometer um frio assassinato. Ambas as ações com a mesma intensidade e emoção, resumindo o que se pode sentir ao assistir à película.

Com claras referências ao cinema independente dos anos 70, Drive traz um herói marginal. Um homem bom, carinhoso, respeitoso, mas sem qualquer pudor em passar por cima da lei. Mais uma vez o uso da violência como expressão máxima do amor, fórmula que já deu bons resultados em muitas obras, como Clube da Luta, se mostra eficaz. É o herói perdido entre o brutal e a modernidade, reprimido, que não sabe se expressar de outra forma se não pela força ou pela velocidade, neste caso.

Talvez seja justamente por este caráter que a atuação de Ryan tenha sido negligenciada pela Academia. Tudo rememora a algo já visto, mesmo que com uma história nova. O personagem desaparece sem dificuldade por mais que emocione. Ao contrário, por exemplo, do George Valentim de Jean Dujardin, em O Artista, que quer sempre aparecer, este de Drive prefere se manter recluso, escondido em um submundo onde ele sabe estar seguro. É só uma pena que o filme tenha sido tão fiel aos seus princípios que também tenha ficado oculto entre tantos lançamentos inferiores.

 

Assista ao trailer:

Drive (2011, EUA)
Direção:
Nicolas Winding Refn
Roteiro: Hossein Amini
Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan e Albert Brooks
100 Minutos

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Amanhã Nunca Mais

Em seu primeiro longa-metragem, Amanhã Nunca Mais, Tadeu Jungle já deixou clara a sua opção por fazer uma crítica à sociedade brasileira, principalmente a anestesiada classe média representada na tela. Nenhum problema nesta crítica, o que já começa a desqualificar a obra é a forma como ela é colocada. Se o público não percebê-la no filme, por exemplo, fica sabendo desta intenção até mesmo no material de divulgação, que já mostra a tendência da obra de apresentar algo mastigado, que até por isso fica sem sabor para quem tenta consumir.

Na história, Lázaro Ramos é o anestesista Walter, um homem bom que sofre por não conseguir dizer não a ninguém, mesmo que saiba que terá problemas com isto. Em um dos poucos momentos de lazer em família, durante um fim de semana na praia, ele acaba cedendo ao pedido do chefe e volta para o trabalho em São Paulo, provocando o desgosto da mulher (Fernanda Machado) e da filha. Desconfiado de que pode ser trocado por outro a qualquer momento, Walter tenta agradar a esposa, mas não sabe como pode fazer isto.

No aniversário de sua filha, então, ele tem a ideia de ajudar com a preparação da festa, mesmo estando de serviço. Após convencer a mulher de que é capaz de cumprir a simples missão de levar o bolo é que ele percebe que nada será tão fácil. Trabalhando em um hospital público e morando em uma caótica metrópole, Walter passa por diversos contratempos até conseguir enfim chegar em casa com a encomenda. Como ele tem esta dificuldade em negar qualquer pedido, tudo fica ainda mais difícil.

Mesmo que o roteiro tenha seus méritos, mantendo a história coesa apesar de passar por diversas situações diferentes em pequenos intervalos de tempo, sofre por uma certa fraqueza. A fórmula acaba ficando gasta muito rapidamente, tornando a tarefa da busca do bolo quase que mais maçante para o espectador do que para o próprio Walter. Talvez a obra funcionasse melhor como um curta-metragem, se tornando por vezes bastante arrastada. Mesmo as boas atuações não salvam o público de momentos de tédio diante da tela.

O problema maior da fita, no entanto, é a apresentação. Amanhã Nunca Mais começa mal. Em uma exibição na televisão, provavelmente os primeiros minutos sirvam para procurar algo melhor em outra emissora. No cinema, apenas para pensamentos de arrependimento. Artista multimídia, Tadeu não resistiu à tentação de criar uma espécie de clipe, que no início do longa irrita quem está assistindo, em vez de fidelizar o público. Se tudo melhora depois, infelizmente o espectador já está de má vontade com o restante da obra.

A crítica a um Brasil anestesiado, contada sob a ótica de um anestesista, parece um tanto fraca. As explicações são mais visíveis do que a opinião dentro do filme. Fica assim a impressão de que ou não foi possível passar no longa a mensagem que se desejava ou, pior, acreditou-se que o público não seria capaz de compreendê-la. Em geral, então, Amanhã Nunca Mais acaba sendo um filme de poucos atrativos e fácil de ser esquecido.

Assista ao trailer:

Amanhã Nunca Mais (2011, Brasil)
Direção:
Tadeu Jungle
Roteiro: Marcelo Muller, Mauricio Arruda e Tadeu Jungle
Elenco: Lázaro Ramos, Fernanda Machado e Maria Luísa Mendonça
74 Minutos

A Pele que Habito (La Piel que Habito)

As cores de Almodóvar já não são mais as mesmas. Se em Abraços Partidos o diretor espanhol retomou alguns de seus temas e cenários da juventude, agora com o novo A Pele que Habito o cineasta parece romper de vez com o seu cinema alegre e multi-colorido e cria um ambiente clean apesar de sombrio, principalmente pela grande atuação de Antonio Banderas, que deixa de lado o bom-mocismo para encarnar um personagem que chega a assustar pela sua obsessão e seu ar quase de um psicopata. Se desta vez a história parece bizarra até mesmo para Almodóvar, não se pode pensar em outro diretor para ela.

O Dr. Robert, um importante cirurgião espanhol, vivido por Banderas, sofre há anos com a morte de sua mulher após um acidente de carro, em que ela teve seu corpo carbonizado. O médico, então, fica obcecado com a ideia de criar uma pele artificial que possa suportar até mesmo o fogo. Afastado de seu trabalho tradicional, Robert vive em uma mansão equipada com um moderno laboratório e centro cirúrgico, onde ele pode fazer seus experimentos. Para isso, no entanto, ele precisa de uma cobaia humana, a bela Vera (Elena Anaya), a quem ele mantém presa.

Trancafiada todo o dia no quarto, a moça tem poucas esperanças de retomar sua vida normal longe dali. Os únicos contatos que tem é com o médico e com Marília (Marisa Paredes), a governanta da casa. Quando o filho de Marília visita o local, Vera tem a chance de saber mais sobre Robert, e percebe que talvez o médico esteja se apaixonando por ela, já que ela é muito parecida com a falecida mulher do doutor. Assim, ela começa a acreditar que ainda pode sair daquele quarto. Porém, o que passou na casa nunca irá sair de sua memória, e mudará a sua vida para sempre.

Se o óbvio seria associar A Pele que Habito com O Médico e o Monstro, Pedro Almodóvar mostra sua maestria ao fazer com que o seu doutor seja, ele próprio, o bem e mal encarnados em uma só personalidade. Robert não precisa de qualquer transformação, ele é humano, com o que de bom e ruim isto possa acarretar. Mais do que à história de Jekyll e Hyde, no entanto, o filme remete a OldBoy, premiado longa sul-coreano de 2003 sobre a vingança, tema que tem importante papel também desta vez.

A obsessão interpretada por Banderas não é sem razão. Almodóvar tem sempre uma explicação para os desvios de seus personagens. No decorrer da história, o espectador percebe como a vingança move as ações não apenas do Dr. Robert, mas de muitos dentro da trama. Assim como OldBoy, também, temos um personagem que é sequestrado e mantido refém de uma forma bastante estranha. Vera não está ali por acaso, está pagando por uma ação do passado, algo que nunca imaginou que pudesse causar tamanha dor a alguém, a ponto desta pessoa lhe fazer passar por tudo o que ela acaba passando.

Perturbador em muitos momentos, A Pele que Habito pode ser definido quase como um terror psicológico, mas de um tipo que só poderia ser filmado por Almodóvar. O diretor, aliás, mostra sua genialidade em deixar o espectador imaginar uma coisa, quando o que ele quer dizer é algo bem diferente, como ele faz com o próprio título da obra, ou na escolha do elenco. Se perdeu o colorido de seus primeiros filmes, o espanhol deixa claro que evoluiu ainda mais em seu trabalho, e que seu estilo pode render grandes obras mesmo que sem a extravagância que lhe deu sua fama.

Assista ao trailer:

A Pele que Habito (La piel que habito, 2011, Espanha)
Direção:
Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya e Marisa Paredes
117 Minutos

O Palhaço

Se em Feliz Natal, Selton Mello optou por uma história mais intimista e hermética ao grande público, em seu novo filme, O Palhaço, que estreia nesta sexta, ele se esforça para se libertar deste mal, buscando um caminho que dialogue melhor com estas mesmas pessoas, de quem é ídolo. O diretor, desta vez, protagoniza o longa, sendo capaz assim de facilitar a identificação dele com o filme. Mais do que isto, o ator parece sofrer do mesmo mal de seu personagem, que vive uma crise existencial e precisa se reencontrar.

Benjamin, vivido por Selton, é um palhaço do circo Esperança, onde se apresenta ao lado de Valdemar (Paulo José), seu pai. Perfeccionista, o jovem toma para si a responsabilidade do local, mas não suporta o peso que ele mesmo tenta carregar. Enquanto o pai goza o que lhe resta da vida, ao lado de uma mulher bem mais nova, o filho não sabe aproveitar os pequenos momentos de felicidade que lhe aparecem.

Deprimido, o palhaço decide, então, abandonar o circo para descobrir qual é a sua verdadeira vocação. Se antes ele precisava se desdobrar para cuidar do bem-estar e das necessidades de cada um dos artistas, desta vez ele tem que aprender a tomar conta de si mesmo, algo que nunca lhe sobrara tempo de fazer. Sem ao menos um documento de identidade, Benjamin sai à procura de um emprego normal e de uma mulher que fique ao seu lado. Mais do que isto, ele faz uma grande busca interior, para saber quem é ele de verdade, o que nunca havia questionado antes.

Apesar de não ser incomum, a ideia de um palhaço com crise de depressão parece interessante para um filme, e causa certa curiosidade saber o que uma figura conhecida como Selton Mello pode fazer com este tema. Mesmo com muitos momentos engraçados e emocionantes ao longo da trama, no entanto, o resultado final é lento e maçante. A história se arrasta e parece não chegar a qualquer lugar que já não tenha estado. O filme, aliás, sofre do mesmo mal de Muita Calma Nesta Hora, que se apoia em esquetes de humor, com participações especiais, enfraquecendo o roteiro.

O Palhaço, no entanto, é superior à comédia de Felipe Joffily. Com atuações esplêndidas, principalmente pelas figuras do veterano Paulo José e da novata Larissa Manoela, que não se intimida em roubar a cena em diversos momentos no papel da pequena Guilhermina, o drama ainda conta com uma bela fotografia e uma inspirada trilha musical, que resgata canções bregas ao mesmo tempo em que apresenta novidades que se encaixam com maestria nas cenas. A escolha dos cenários ainda mostra um Brasil pouco conhecido, do interior de Minas Gerais, tornando o filme ainda mais interessante visualmente.

Uma das cidades filmadas, Passos, é a terra natal do agora diretor Selton Mello, o que deixa ainda mais claro o caráter auto-referente do filme. Se o personagem de Paulo José sabe com clareza que “o rato come queijo, o gato bebe leite e eu sou um palhaço”, tanto Benjamin, quanto o próprio Selton, parecem ainda não ter certeza do seu lugar. Sucesso de bilheteria em obras como A Mulher Invisível, Selton parece tentar negar seu talento para trabalhos mais populares, tentando criar algo mais intimista, mais artístico, sem com isso agradar nem quem prefere um cinema autoral, nem o consumidor do blockbuster. O nome do circo, no entanto, dá um sinal de que nada está perdido para a nova carreira de Mello, e O Palhaço, com seus problemas, já indica que o cineasta está mesmo no caminho certo.

 

Assista ao trailer:

O Palhaço (2011, Brasil)
Direção:
Selton Mello
Roteiro: Selton Mello
Elenco: Selton Mello, Paulo José e Larissa Manoela
90 Minutos

Capitães da Areia

A criança é e sempre foi um dos símbolos maiores de esperança no futuro, mas o que dizer daquele menino ou menina de rua, de quem pouco se acredita que exista algum porvir? É exatamente sobre os sonhos e desilusões destes que trata o romance Capitães da Areia, de Jorge Amado. Nas telas dos cinemas, a história chega como uma homenagem ao centenário do autor feita por sua neta, Cecília Amado, que mostra ter um cuidado especial com os personagens do avô, ao mesmo tempo em que deixa claro que não está neste papel apenas por seus laços sanguíneos, mas porque tem capacidade para o posto.

Na Salvador dos anos 50, um grupo de meninos de rua vivia sua própria sociedade sob a liderança do ousado Pedro Bala. Ladrões, malandros, espertos, os garotos aproveitam tudo o que podem da cidade que os excluiu, e sabem que têm que proteger uns aos outros para se manterem como um grupo forte, os temidos Capitães da Areia. Ao lado de Bala, para armar os planos, o bando conta com a sabedoria do Professor, um jovem que tem a convicção de que seria um grande artista, não fosse um bandido. E é com a certeza de que são foras-da-lei, que eles sobrevivem e superam seus problemas.

A vida do grupo, no entanto, fica tumultuada com a presença de Dora, que acaba de perder seus pais vítimas de um surto de varíola. Levada para junto ao grupo pelo Professor, a menina causa desentendimentos, já que nunca se aceitou mulheres entre os capitães. Alvo do desejo de muitos dos garotos, ela também faz despertar o amor tando em Bala como no Professor, e ainda assim tem uma relação quase maternal com outros meninos. Além dos problemas dentro do grupo, os garotos ainda enfrentam a disputa com um outro grupo de menores e o cerco da polícia, que tenta deter os famosos capitães.

Vistos sob a ótica do dia a dia em uma grande metrópole, gente como os personagens do filme são somente bandidos, criminosos que nasceram já com o dom da maldade. Aqui, no entanto, o ponto de vista é outro, é possível viver a rotina deles. Quando Dora chega ao grupo, e é recebida com violência, o Professor faz questão de desfazer a primeira impressão, são todos bons meninos. Eles roubam, enganam, trapaceiam, e até usam da força, mas apenas por questão de sobrevivência. A menina, esperta, logo diz a todos a verdade óbvia, eles são apenas crianças que pensam que são homens.

Se Jorge Amado foi mestre ao fazer cada personagem bastante carismático, apesar de seus defeitos, Cecília soube passar isso ao longa, principalmente na escolha dos desconhecidos atores. No entanto, mesmo que a história do livro seja boa, falta alguma coesão na tela. Com uma narrativa bastante fragmentada, o filme talvez funcionasse melhor dividido em episódios independentes em alguma série. Como a intenção foi o cinema, o resultado perdeu um pouco de seu peso.

Para compensar os problemas no texto, o filme conta com boas atuações, que consegue facilmente propôr um clima misto entra a fantasia e o drama. Se por vezes a fotografia parece um tanto careta para remontar a década de 50, em muitos momentos há cenas que surpreendem pela beleza, como quando os capitães estão em um parque de diversões. A trilha sonora, ainda, realizada por Carlinhos Brown, foge do óbvio mas consegue uma integração envolvente com as imagens.

A beleza e os defeitos do filme, fazem com que o espectador perceba a beleza e os defeitos desses meninos, desses Capitães da Areia. Cecília Amado consegue, ao seu modo, enxergar e apresentar em seu filme aquilo que há de bonito na miséria, já que é bobagem pensar que só se vive daquilo que é bom, mas que não custa nada sonhar. E é aí que o longa-metragem chega com o seu maior mérito, que é mostrar que apesar das adversidades, mesmo essas crianças de rua ainda tem o principal, a esperança.

Assista ao trailer:

Capitães da Areia (2011, Brasil)
Direção:
Cecília Amado
Roteiro: Cecília Amado e Hilton Lacerda
Elenco: Jean Luis Amorim, Robério Lima e Ana Graciela

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes)

Se há mais de 40 anos, em 1968, o ator Charlton Heston nos mostrou que no futuro a Terra é dominada por símios inteligentes, enquanto aos humanos resta uma vida pré-histórica, sem sequer o dom da fala, agora James Franco vem nos dizer como foi o início deste trágico destino dos homens. Em Planeta dos Macacos: A Origem, do diretor Rupert Wyatt, são muitas as referências ao antigo filme, de Franklin J. Schaffner. No entanto, não há como traçar uma relação entre os cinco filmes originais e este, já que as contradições são muitas entre as obras.

Aqui, Franco vive o cientista Will Rodman, que faz um imenso esforço para descobrir a cura para o mal de alzheimer, doença que acomete o seu pai, Charles (John Lithgow). Testando os experimentos em macacos em uma grande corporação da indústria farmacêutica, ele logo descobre uma fórmula que não apenas regenera as células cerebrais, como pode despertar uma inteligência incomum em quem é submetido a ela. No entanto, um acidente no laboratório, que resulta na morte da cobaia, faz com que o projeto tenha que ser completamente repensado.

Enquanto tenta descobrir uma fórmula mais eficaz de combater a doença que atormenta seu pai, Will passa a ser babá de um pequeno chimpanzé, Cesar, filho de sua antiga cobaia. Logo o cientista percebe que há algo de especial no filhote, vindo dos genes modificados por seu experimento. Com uma inteligência incomum para macacos, e acima até da de alguns humanos, Cesar cresce aprendendo o modo de vida do homem, seja para o bem ou para o mal. Assim, quando ele é obrigado a conviver com outros de sua espécie, o que aprendeu serve para que se torne um líder e seu rancor contra os humanos é decisivo para o que fará com este poder.

Apesar do nome do filme supor que se trate da origem do Planeta dos Macacos, este filme foge das explicações dadas na série dos anos 70. Se lá Cesar era o filho de animais vindos do futuro, em uma fuga desesperada pelo espaço que desafia a física, desta vez são as experiências genéticas que determinam o início do fim da humanidade. Mesmo o mais recente filme realizado por Tim Burton não pode se encaixar neste, já que nele supõe que se trate de um outro lugar, fora da Terra. Sendo um filme a parte, o longa acaba gerando certa estranheza, ao narrar a origem de algo que não se sabe ao certo ainda o que é.

Não apenas o nome do chimpanzé líder da revolução símia é o mesmo dos filmes originais, mas há diversos momentos em que há referências a eles. Enquanto na obra de 1968, o personagem humano de Charlton Heston era chamado de Olhos Claros, pelos espertos macacos do futuro, aqui é a mãe de Cesar que recebe esse apelido dos cientistas. Mesmo com as homenagens, porém, Wyatt foi além ao propor um motivo especial para o domínio animal. Enquanto na série original os primatas apenas adquirem características humanas, desta vez eles ainda mantém as qualidades dos macacos, o que lhes dá grande vantagem sobre os homens.

Nas cenas em que os animais mostram todo seu potencial está a vantagem sobre os filmes originais. Se o roteiro se apresenta menos complexo do que antes, a tecnologia compensa isso com imagens muito mais realistas. Não vemos desta vez um ator vestido de chimpanzé como fica claro tanto na primeira série quanto no longa de 2001, mas é possível acompanhar um verdadeiro primata atuando ao lado de Franco, Lithgow ou Freida Pinto. Quando inicia a guerra entre as duas raças, esta tecnologia é decisiva para mostrar esta superioridade de Cesar e seus iguais.

Não é de esperar que O Planeta dos Macacos: A Origem fique apenas neste primeiro filme. Se nos anos 70 os produtores já foram bem-sucedidos em explorar a série, o mesmo deve se repetir agora. Mesmo com o original décadas distante, o sucesso de bilheteria desta nova explicação é grande no mercado norte-americano. Resta esperar para saber se, assim como distorceram a forma como ocorreu a dominação, vai haver um novo futuro para este planeta, diferente do encontrado pelo personagem de Heston.

Originalmente publicado no Portal R7.

 

Assista ao trailer:

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011, EUA)
Direção:
Rupert Wyatt
Roteiro: Rick Jaffa
Elenco: James Franco, Andy Serkis e Freida Pinto
105 Minutos

A Árvore da Vida (The Tree of Life)

Até onde é possível ir para entender melhor a sua própria relação com a vida? Para o cineasta norte-americano Terrence Malick, se pode ir muito longe. Conhecido por ser um diretor recluso e perfeccionista, Malick foi o grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes por A Árvore da Vida, seu quinto longa-metragem em uma carreira de quase quarenta anos. Mais do que apenas mais um filme, este, estrelado por Brad Pitt e Sean Penn, é o trabalho mais pessoal e bem realizado do diretor, e sem dúvida uma obra que deve ficar entre os maiores já feitos na história do cinema.

Sean Penn é Jack, um arquiteto de meia idade ainda atormentado pela relação de amor e ódio com o pai e com um acontecimento na juventude que marcou a história de toda a família. Mr. O´Brien, o pai, vivido por Brad Pitt, nunca foi um homem afetuoso. Na ânsia por dar um futuro glorioso aos seus três filhos, ele sempre prefere o rigor e a força, ao carinho. Resta então às crianças o suporte da mãe, uma mulher submissa, mas capaz de encontrar forças onde for para proteger e reconfortar os meninos, a quem ama incondicionalmente.

Nada fica muito óbvio durante as mais de duas horas de projeção, mas a profundidade das cenas mostram que a carga emotiva do filme pode falar muito mais ao espectador do que um roteiro simples, com começo, meio e fim. Não existe tempo em A Árvore da Vida, Malick vai muito além da cronologia para contar esta relação entre pai e filho, que começa quando a mãe ainda é uma menina e vai muito mais longe do que qualquer outro cineasta ousou chegar. Se quando Terrence começava a carreira, o mundo do cinema ainda estava deslumbrado pelo trabalho de Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço, desta vez é ele quem chama a atenção com sua odisseia na vida.

A odisseia, aliás, não é apenas de seu personagem, mas do próprio diretor. Se o intuito de Mallick era fazer um filme que explorasse o ser humano, nada melhor do que usar a si como centro desta história. Mais do que Jack, Sean Penn é Terrence Mallick nesta obra. Filho mais velho de três irmãos, o cineasta sempre sofreu a culpa de ter aproveitado os privilégios de ser o primogênito, mas ter falhado no momento em que um de seus irmãos mais precisou. Estudante de violão, o jovem Larry Mallick foi à Europa ter aulas com um rigoroso professor. Sem suportar a pressão, ele se mutilou. O pai pediu que Terrence fosse buscá-lo, mas o diretor se negou. Larry se matou logo em seguida. Este episódio é um dos pontos de partida de A Árvore da Vida.

Não é fácil, no entanto, para o cineasta entrar em contato com a história. Consumido pela culpa desde que aconteceu, em 1968, Mallick busca elementos para expôr isto nas telas. Desde seus primeiros trabalhos no cinema, ele deseja fazer um filme sobre a origem da vida. O diretor então achou que o momento ideal para isso seria justamente neste longa, em que fala sobre a sua própria vida. Conhecido por colocar nas telas cenas de uma beleza plástica grandiosa, Terrence deixa os espectadores desta vez deslumbrados com o que ele é capaz de criar.

Se a obra não é completa do ponto de vista do cinema clássico, isto faz com que haja um maior leque de possibilidades de entendimento do filme. O menino Jack, mais do que apenas estar se relacionando com o seu pai e mãe, está também entrando em contato com seu próprio instinto, com a violência existente nos seres vivos desde o início da vida; e o adulto Jack sabe disso, e sabe que se tornou apenas uma cópia moderna do próprio pai. Além disso, há uma luta constante na tela entre a ciência e a fé, duas instituições que sempre estão juntas, mas nunca deixarão de se confrontar.

Sem respostas, mas com diversos questionamentos, Terrence Mallick consegue um ótimo resultado em um filme que tenta desvendar esta misteriosa Árvore da Vida. Mantendo sua assinatura, com belas imagens, presença de astros no elenco, forte contato com a natureza e a narração tomando conta de boa parte do filme, o diretor não apenas não decepciona, mas se consolida ainda mais no hall dos grandes mestres da sétima arte.

Assista ao trailer:

A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011, EUA)
Direção:
Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain
139 Minutos

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