Archive for the ‘ Ficção ’ Category

O Homem do Futuro

O Brasil nunca teve grande tradição no cinema fantástico, mas esta imagem pode estar mudando com a consolidação do nome de Claudio Torres como um diretor do gênero. Com o lançamento de seu quarto longa-metragem, O Homem do Futuro, o cineasta mostra que não apenas sabe fazer uma grande obra dentro do universo da ficção científica, mas que sabe bem adequar um tema complexo ao público. Não apenas isso, Torres também demonstra uma habilidade de deixar suas obras com uma brasilidade mesmo que com temas recorrentes no cinemão americano.

Em O Homem do Futuro, Wagner Moura é o fracassado cientista Zero, que na falta de uma vida mais interessante, dedica o tempo que tem a desenvolver uma nova forma de energia. Com a certeza de que um dia terá uma descoberta que irá mudar o destino da humanidade, ele pretende não apenas ser reconhecido por isso, mas provar para Helena (Alinne Moraes), o amor de sua vida, que ela estava errada em tê-lo humilhado vinte anos antes, em uma festa da faculdade.

O invento, no entanto, dá errado, e Zero acidentalmente vai parar em 1991, justamente no pior dia de sua vida. Sabendo toda a dor que sofreu por todos estes anos pela rejeição de Helena, ele decide mudar o passado, contando para seu antigo eu não apenas a desgraça que vai se abater sobre a sua vida, mas como será o mundo no futuro, e como se dar bem com todas estas informações. No entanto, o fato de tentar consertar sua vida desencadeia uma série de transtornos que podem piorar ainda mais a sua relação com o seu grande amor.

Se conseguiu conquistar um público considerável com A Mulher Invisível, seu filme anterior, usando este universo fantástico aliado a um senso de humor tipicamente brasileiro, desta vez Torres também traz uma carga alta de romantismo e nostalgia, tendo um resultado ainda melhor. Mesmo com uma atuação pouco natural, o casal de protagonistas, Alinne Moraes e Wagner Moura, emocionam o espectador com a mesma facilidade com que o faz rir. Não distante ficam os coadjuvantes Fernando Ceylão e Maria Luisa Mendonça.

Apesar disso, é de lamentar que o cineasta tenha abandonado a veia mais contestadora de Redentor, seu primeiro longa, e abraçado de vez o cinema de puro entretenimento. Mesmo que o resultado seja bom, superior a grande parte da produção nacional, não rende qualquer tipo de reflexão futura. Com o mesmo tema, a viagem no tempo, o próprio Brasil já produziu o subestimado A Máquina, de João Falcão, também envolto em humor e romance e com um jeito mambembe de filmar, mas com maior poesia e profundidade.

Para ambientar o 1991 de Zero, o filme usa a técnica simples, mas eficiente, da trilha sonora, principalmente com a canção Tempo Perdido, da Legião Urbana, cantada pelos próprios atores. Não apenas no som, mas a direção de arte também opta por alternativas sem qualquer requinte na maior parte das cenas. O resultado acaba se tornando natural e agradável, dando um charme a mais à narrativa. Um dos exemplos é a roupa de astronauta usada por Wagner Moura. Não que ele precisasse dela para a viagem no tempo, mas ele queria estar bem para uma festa à fantasia.

Mesmo que distante das superproduções hollywoodianas de ficção científica, ou de qualquer filme que explora um universo fantástico com um abuso de efeitos especiais, O Homem do Futuro envolve e cativa o espectador. O cinema brasileiro, realizado por Claudio Torres, mostra então que não é preciso gastar milhões de reais para fazer o público acreditar naquilo que se pretende contar. Basta saber criar uma boa história e ter um jeitinho brasileiro para levá-la para as telas, e parece que Claudio não tem dificuldade com nenhum dos dois.


Assista ao trailer:

O Homem do Futuro (2011, Brasil)
Direção:
Cláudio Torres
Roteiro: Cláudio Torres
Elenco: Wagner Moura, Alinne Moraes e Gabriel Braga Nunes
102 Minutos

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes)

Se há mais de 40 anos, em 1968, o ator Charlton Heston nos mostrou que no futuro a Terra é dominada por símios inteligentes, enquanto aos humanos resta uma vida pré-histórica, sem sequer o dom da fala, agora James Franco vem nos dizer como foi o início deste trágico destino dos homens. Em Planeta dos Macacos: A Origem, do diretor Rupert Wyatt, são muitas as referências ao antigo filme, de Franklin J. Schaffner. No entanto, não há como traçar uma relação entre os cinco filmes originais e este, já que as contradições são muitas entre as obras.

Aqui, Franco vive o cientista Will Rodman, que faz um imenso esforço para descobrir a cura para o mal de alzheimer, doença que acomete o seu pai, Charles (John Lithgow). Testando os experimentos em macacos em uma grande corporação da indústria farmacêutica, ele logo descobre uma fórmula que não apenas regenera as células cerebrais, como pode despertar uma inteligência incomum em quem é submetido a ela. No entanto, um acidente no laboratório, que resulta na morte da cobaia, faz com que o projeto tenha que ser completamente repensado.

Enquanto tenta descobrir uma fórmula mais eficaz de combater a doença que atormenta seu pai, Will passa a ser babá de um pequeno chimpanzé, Cesar, filho de sua antiga cobaia. Logo o cientista percebe que há algo de especial no filhote, vindo dos genes modificados por seu experimento. Com uma inteligência incomum para macacos, e acima até da de alguns humanos, Cesar cresce aprendendo o modo de vida do homem, seja para o bem ou para o mal. Assim, quando ele é obrigado a conviver com outros de sua espécie, o que aprendeu serve para que se torne um líder e seu rancor contra os humanos é decisivo para o que fará com este poder.

Apesar do nome do filme supor que se trate da origem do Planeta dos Macacos, este filme foge das explicações dadas na série dos anos 70. Se lá Cesar era o filho de animais vindos do futuro, em uma fuga desesperada pelo espaço que desafia a física, desta vez são as experiências genéticas que determinam o início do fim da humanidade. Mesmo o mais recente filme realizado por Tim Burton não pode se encaixar neste, já que nele supõe que se trate de um outro lugar, fora da Terra. Sendo um filme a parte, o longa acaba gerando certa estranheza, ao narrar a origem de algo que não se sabe ao certo ainda o que é.

Não apenas o nome do chimpanzé líder da revolução símia é o mesmo dos filmes originais, mas há diversos momentos em que há referências a eles. Enquanto na obra de 1968, o personagem humano de Charlton Heston era chamado de Olhos Claros, pelos espertos macacos do futuro, aqui é a mãe de Cesar que recebe esse apelido dos cientistas. Mesmo com as homenagens, porém, Wyatt foi além ao propor um motivo especial para o domínio animal. Enquanto na série original os primatas apenas adquirem características humanas, desta vez eles ainda mantém as qualidades dos macacos, o que lhes dá grande vantagem sobre os homens.

Nas cenas em que os animais mostram todo seu potencial está a vantagem sobre os filmes originais. Se o roteiro se apresenta menos complexo do que antes, a tecnologia compensa isso com imagens muito mais realistas. Não vemos desta vez um ator vestido de chimpanzé como fica claro tanto na primeira série quanto no longa de 2001, mas é possível acompanhar um verdadeiro primata atuando ao lado de Franco, Lithgow ou Freida Pinto. Quando inicia a guerra entre as duas raças, esta tecnologia é decisiva para mostrar esta superioridade de Cesar e seus iguais.

Não é de esperar que O Planeta dos Macacos: A Origem fique apenas neste primeiro filme. Se nos anos 70 os produtores já foram bem-sucedidos em explorar a série, o mesmo deve se repetir agora. Mesmo com o original décadas distante, o sucesso de bilheteria desta nova explicação é grande no mercado norte-americano. Resta esperar para saber se, assim como distorceram a forma como ocorreu a dominação, vai haver um novo futuro para este planeta, diferente do encontrado pelo personagem de Heston.

Originalmente publicado no Portal R7.

 

Assista ao trailer:

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011, EUA)
Direção:
Rupert Wyatt
Roteiro: Rick Jaffa
Elenco: James Franco, Andy Serkis e Freida Pinto
105 Minutos

Melancolia (Melancholia)

É comum perceber que os cineastas estão entre os humanos com mais problemas de ego, mas o caso do dinamarquês Lars Von Trier se destaca. Desde que consolidou seu nome em todo o mundo com o apoio do marketing conquistado com o movimento Dogma 95, o diretor usa o que pode para inflar o seu ego e, consequentemente, atingir um nível ainda maior de genialidade em suas obras. Porém, se com Anticristo ego e genialidade estiveram em nível quase insuportável, com o seu novo filme, Melancolia o limite foi rompido, e a qualidade muitas vezes dá lugar ao pedantismo.

Não há dúvidas de que as declarações de Von Trier em Cannes, em que o cineasta chocou público, imprensa e organizadores ao defender ideias de Hitler, são apenas mais uma forma de chamar a atenção para o filme, assim como ele já havia feito em outros momentos de forma mais sutil. Se desta vez o diretor foi longe demais no marketing, não é diferente na maneira em que ele desenvolve sua nova obra, sobre a possibilidade do choque entre a Terra e um planeta perdido, chamado Melancolia.

Na primeira parte do filme, o acontecimento astronômico é apenas um pano de fundo sem grande importância. O que gira a trama é o casamento da publicitária Justine (Kirsten Dunst) com Michael (Alexander Skarsgård). Mesmo feliz pelo grande dia, a jovem sente que algo está errado com ela, e reluta em estar na festa. A presença de algumas pessoas no local, no entanto, torna tudo ainda pior, criando um clima de constrangimento para a maioria dos convidados e, principalmente, para o noivo.

Alguns dias após a cerimônia, Justine passa uma temporada na casa de sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) e do marido dela, John (Kiefer Sutherland), um milionário apaixonado por astronomia que tenta tranquilizar a família a respeito dos boatos de que a Terra vai se chocar com Melancolia. À medida em que o tempo passa, e que o planeta intruso se aproxima, a relação entre todos na casa vai mudando, e cada um revela sentimentos que tentava esconder. Apenas Justine permanece serena, como se estivesse escondendo um grande segredo de todos.

Pelas primeiras cenas do filme já é possível perceber que o filme se pretende grandioso. Von Trier mostra um clipe com uma estética de ensaios de moda, em câmera lenta, que dão ao espectador um misto de deslumbramento e inquietação. Esta sensação se mantém durante toda a projeção, que é dotada de atuações incríveis, cenas de uma beleza ímpar, e um roteiro recheado de uma pretensão e arrogância muito maior do que em qualquer outro filme do diretor. Tanto que chega a macular o resultado final.

Fosse original, Melancolia já teria potencial para desagradar a muitos, mas nem mesmo esta qualidade o filme contém. Se a primeira parte lembra a todo momento de Festa de Família, sucesso dinamarquês dirigido em 1998 por Thomas Vinterberg, o resto do filme tem claras inspirações no fracassado Dogma do Amor, filmado pelo mesmo diretor em 2003. Não custa lembrar que Vinterberg foi responsável, ao lado de Lars Von Trier, pelo movimento Dogma 95, que tem em Festa de Família sua maior produção.

Não bastasse as semelhanças propositais, há também aquela por acidente. O filme tem elementos bastante próximos à A Árvore da Vida, de Terrence Malick, que chega ao Brasil em 12 de agosto. Assim, além de Lars Von Trier nos oferecer um trabalho ainda mais pretensioso e arrogante que os anteriores, o fruto aparece como um requentado, que apesar do disfarce de uma trama inédita e inusitada, e do tempero da ótima fotografia e das atuações brilhantes, não tem o sabor das obras anteriores do dinamarquês.

Assista ao trailer:

Melancolia (Melancholia, 2011, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha)
Direção:
Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland
136 Minutos

Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger)

Desde que Homem de Ferro se tornou um grande sucesso nos cinemas, aumentaram as chances de levar a história de Os Vingadores para as telas. Assim, pouco a pouco a Marvel está apresentando melhor ao público de hoje seus maiores heróis, para enfim chegar ao momento de ter todo o grupo junto em um filme. Com o milionário Tony Stark bem representado por Robert Downey Jr., em um filme que também mostra Nick Fury, vivido por Samuel L. Jackson, e com Wolverine já popularizado pelos X-Men, faltava trazer outros nomes, como acontece em Capitão América – O Primeiro Vingador.

Criado em 1941, quando os Estados Unidos viviam o terror pré-Segunda Guerra, o herói foi um dos que serviram para aumentar o ânimo da população do país. Na história, Steve Rogers é um garoto fraco e desajeitado, que sonha um dia se juntar ao exército para ajudar seu país na guerra contra o nazismo. Sua coragem e insistência faz com que ele seja escolhido como cobaia de um experimento que planeja criar um exército de supersoldados, através de um soro que potencializa os atributos físicos e psicológicos de quem o recebe.

No filme, o escolhido para viver o personagem foi Chris Evans. Já com alguma experiência em salvar o mundo como o Tocha Humana de Quarteto Fantástico, o ator não teve dificuldades para convencer na pele do Capitão América. Apenas nas primeiras cenas é que soa falso ver Evans como um baixinho fracote de apenas 40 quilos, resultado de um trabalho de efeitos especiais que não se mostra assim tão eficaz como os outros do resto da obra. Porém, os momentos cômicos vividos pelo garoto neste momento fazem com que o público até esqueça deste deslize.

Se o filme é apenas uma introdução para que o público fique aguardando a chegada dos Vingadores, que deve ser lançado em 2012, não quer dizer que tudo seja fácil para Steve Rogers. Uma vez dentro do exército, e transformado em super-herói, o jovem precisa enfrentar o egocêntrico nazista Johann Schmidt, vivido por Hugo Weaving. Tendo também recebido o mesmo soro que deu força ao Capitão América, o vilão se torna o poderoso Caveira Vermelha. Ao lado do herói, no entanto, está um grupo de corajosos soldados, a bela oficial Peggy Carter (Hayley Atwell), além do excêntrico Howard Stark (Dominic Cooper).

Se na década de 40 ainda não existia O Homem de Ferro, Robert Downey Jr. dá lugar a Cooper, que vive o pai de Tony Stark, mas com as mesmas características do herói. Milionário, apaixonado por tecnologia e armas, Howard dá bem a noção da origem do personagem que fez tanto sucesso nos dois filmes de Jon Favreau. A diferença entre as obras de Favreau e este, dirigido pelo especialista em efeitos especiais Joe Johnston, porém, é que desta vez não estamos diante de uma história tão completa.

Mesmo que a origem do Capitão América seja contada de forma episódica, com começo, meio e fim, fica claro que não passa de um tira-gosto. Muitos dos personagens não tem uma apresentação mais detalhada, como o melhor amigo de Steve, Bucky Barnes (Sebastian Stan), ou o curioso soldado que ajuda o herói a derrotar seus inimigos, Dum Dum Dugan (Neal McDonough). O que dá a entender que a Marvel prefere deixar várias pontas soltas para a origem de outros filmes além de Os Vingadores.

O final, no entanto, deixa claro que é apenas por causa de Os Vingadores que o filme existe. Se muitos longas de super-herói indicam de forma indireta que virá uma sequência, desta vez as últimas cenas deixam isso mais do que explícito, não apenas com os acontecimentos, mas também com o letreiro dizendo que o herói volta no próximo filme. Então, como um filme único, Capitão América – O Primeiro Vingador não satisfaz, mas como uma apresentação da próxima obra, o longa deixa tanto os fãs, como aqueles que pouco conheciam o personagem, com água na boca para saborear o que ainda está por vir.

Assista ao trailer:

Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, 2011, EUA)
Direção:
Joe Johnston
Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely
Elenco: Chris Evans, Hugo Weaving e Hayley Atwell
125 Minutos

O Discurso do Rei (The King’s Speech)

O rigor britânico faz parte de todo o filme O Discurso do Rei, de Tom Hooper, que estreia nesta sexta-feira (11) como o grande favorito ao prêmio principal no Oscar 2011. Contando a curiosa história do pai da Rainha Elizabeth II, o longa caminha com maestria do início ao fim sem erros, mas também sem qualquer grande ousadia cinematográfica ou dramatúrgica. A opção que o coloca no primeiro lugar das listas de melhor filme, também faz com que seja facilmente esquecido pelos mesmos que o preferiram.

Desde os primeiros anos de vida, o príncipe Albert Frederick Arthur George (Colin Firth) sofre com o problema de gagueira. Humilhado por Edward (Guy Pearce), seu irmão mais velho, e pelas babás que deles cuidavam, o jovem ainda recebia do pai um duro tratamento. Suas dificuldades nestas relações fizeram com que ele se tornasse cada vez mais inseguro. Com o advento de novas tecnologias, e a necessidade da Família Real britânica ter que se comunicar com o povo através de rádio e auto-falantes, a dificuldade de fala da Albert se tornou um problema ainda maior e mais visível.

Ajudado pela esposa (Helena Bonham Carter), ele vai de médico em médico sem qualquer resultado positivo para se livrar da gagueira, até que eles conhecem o terapeuta da fala Lionel Logue (Geoffrey Rush), acusado de usar métodos nada ortodoxos para tratar de seus pacientes. Logo estes métodos começam a surtir efeito no príncipe, que inicia uma amizade com Logue. Porém, com a morte de seu pai, e a recusa do irmão em ser rei, Albert terá que assumir o trono da Grã-Bretanha, e ainda lidar com um grande desafio, a iminência da Segunda Guerra Mundial.

Ao lado do sempre impecável Geoffrey Rush – que mais uma vez auxilia um monarca inglês com seu personagem – Colin Firth fez uma elogiada atuação. Mas não apenas seu trabalho deve render ao ator seu primeiro Oscar. Se ele não faz uma interpretação tão vibrante quanto a de Javier Bardem, de Biutiful, ou de James Franco, em 127 Horas, tem em contrapartida o fato de quase ter sido premiado em 2010 por O Direito de Amar. Após dar a estatueta para Jeff Bridges, de Coração Louco, a Academia de Hollywood sente a necessidade de premiar Firth neste ano.

Não há pontos fracos em O Discurso do Rei, assim como os seus pontos fortes também não chegam a empolgar, tornando o filme nada mais do que um bom trabalho. Se outros concorrentes ao prêmio mais comentado do mundo do cinema são melhores do que o filme de Hooper, este leva vantagem por não ter estes momentos ruins. É um filme inglês, no que de melhor e pior isto possa significar. É frio, correto, bem desenhado, sem altos e baixos. Se hoje ele é o que tem a maior chance de levar o prêmio principal, amanhã poucos são os que vão comentar sobre sua relevância à sétima arte.

O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010, Inglaterra/EUA)
Direção:
Tom Hooper
Roteiro: David Seidler
Elenco: Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter
118 Minutos

O Vencedor (The Fighter)

Há aqueles filmes que só de ver o poster e o título já fica fácil prever qual a história e já se tem a certeza do final. Geralmente acontece com obras de superação, que trazem alguma lição moral em seu final previsível, mas emocionante, e que levam o espectador a pensar sobre os caminhos que a sua própria vida está tomando. Mesmo que O Vencedor, de David O. Russell, se encaixe nesta descrição, o filme ainda traz qualidades que fazem valer a pena ser visto, como a assustadora interpretação de Christian Bale.

Desde pequeno Micky Ward (Mark Wahlberg) teve em casa o melhor professor de boxe que poderia. Irmão do famoso Dickie Eklund (Christian Bale), o jovem aprendeu os macetes de esporte mesmo antes de ter idade para decidir se queria ou não lutar. Depois de adulto, porém, ele não consegue ter sucesso em cima dos ringues. Treinado por Dickie e empresariado por sua mãe, Alice (Melissa Leo), parece que Micky sempre está em uma luta para perder, e já não tem mais disposição de seguir sua carreira.

Mais do que sua família, a mãe e o irmão dominam a vida de Micky. Conhecido por ter nocauteado o campeão Sugar Ray Leonard em um lance duvidoso, Dickie vive como um adolescente com sua turma de amigos, que se preocupam mais em beber ou usar crack do que em ter uma vida condizente com suas idades, que já passam dos 40 anos. Quando Micky conhece a jovem garçonete Charlene (Amy Adams), seu destino começa a mudar. Ao lado dela, ele consegue dizer não para a família e tentar a sorte na carreira por conta própria. Sem os problemas que a mãe e o irmão podem trazer, ele tem mais chances no esporte, mesmo já sendo considerado velho para lutar.

Quando começou a produção, Darren Aronofsky era o nome cotado para a direção. A mudança para Russell se mostrou acertada, já que Aronofsky fez em 2008 seu O Lutador, bastante semelhante com esse. Se em seu filme era mostrada a superação do ator Mickey Rourke, desta vez quem se destaca são mesmo os personagens reais Dickie e Micky, principalmente do primeiro, brilhantemente representado nas telas pelo camaleônico Bale. Difícil imaginar que aquele sujeito magro e debochado é também o atual Batman dos cinemas.

Mesmo sendo coadjuvante, Bale é quem segura O Vencedor e o ajuda a torná-lo um grande filme. Até quem já viu o ator em seus mais diversos papéis ainda se surpreende com o que ele é capaz de fazer com seu corpo e em suas interpretações. Se ele não chega a estar tão magro como quando fez O Maquinista, a forma como vive seu papel lhe dá uma aparência ainda menos saudável. Os mais céticos, que podem achar exagerado o trabalho de Christian, percebem o erro nas cenas finais, em que o verdadeiro Dickie aparece na tela e mostra que não teve nada na atuação que destoe do personagem.

No geral, não há novidades no filme em relação ao que já foi feito antes em outros trabalhos sobre superação, salvo a surreal família dos lutadores, com suas irmãs que parecem saídas da versão norte-americana de algum filme de Fellini. O Vencedor, como o próprio personagem de Mark Wahlberg, parece uma obra de pouca importância, que se mostra fraca, sem chances de se dar bem, mas que apenas está guardando suas energias para dar ao espectador um final triunfante. Clichê, mas triunfante, e que vale a pena ser visto.

O Vencedor (The Fighter, 2010, EUA)
Direção:
David O. Russell
Roteiro: Scott Silver e Paul Tamasy
Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale e Melissa Leo
115 Minutos

Deixe-me Entrar (Let Me In)

Todo mundo já passou por uma situação parecida. Existe aquela piada que toda vez que a pessoa ouve dá risada, mesmo já conhecendo de cor. Certo dia, em um almoço de família, a tia resolve contar justamente aquela anedota, e por mais que conte palavra por palavra exatamente como se conhece, aquilo parece não ter a mínima graça. É mais ou menos a diferença entre o suspense sueco Deixa Ela Entrar e o terror norte-americano Deixe-Me Entrar, que chega aos cinemas brasileiros. Por mais que sejam muito parecidos nas cenas, o resultado final não tem o mesmo sabor.

Assim como a primeira obra, de 2008, o filme trata de um menino de 12 anos, Owen (Kodi Smit-McPhee), que tem dificuldades de relacionamento. Vítima constante de bullying na escola ele ainda é filho de uma mãe fanática religiosa que acaba de se separar de um pai já bastante ausente. Quando a menina Abby (Chloe Moretz) chega na vizinhança, ele enfim percebe que pode ter uma convivência sadia com outra pessoa. Porém, logo ele nota que ela é mais do que uma garota de sua idade, mas uma vampira, que para sobreviver precisa causar a morte de outras pessoas.

Se no filme original o tema central é a solidão do garoto, e sua transformação pouco a pouco em um sociopata, usando para isso a metáfora do vampirismo, desta vez o foco é bastante diferente. Mesmo conhecido pelos inúmeros assassinos seriais que produz dia a dia, os EUA optou por uma visão bem mais superficial da história, que agora se transforma simplesmente em um terror regado de cenas de sangue, em que a solidão do personagem é apenas um elemento a mais para preencher o tempo de filme.

Nesta nova versão, porém, pouco foi modificado em relação ao original, mas há uma grande diferença no foco. Do começo ao fim, as cenas se repetem com poucas mudanças em seu conteúdo, lembrando o trabalho de Gus Van Sant em Psicose, que é uma cópia fiel, mas muito inferior ao filme de Alfred Hitchcock. A mudança mais significante acontece nas primeiras cenas, que na versão americana demonstra a preferência por filmes policiais no país.

Mesmo que com as mesmas cenas, o resultado é outro, mostrando a diferença que faz o olhar do cineasta em uma produção. Para quem não viu o filme sueco, Deixe-me Entrar é apenas mais um filme de terror, que usa vampiros para tentar ganhar o público jovem. Quem assistiu ao original deve sentir falta da empatia causada pelo casal de protagonistas já no início da trama e, provavelmente, terá vontade de rever o primeiro filme para apagar a má impressão deixada por essa refilmagem.

Deixe-me Entrar (Let Me In, 2010, EUA)
Direção:
Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves e John Ajvide Lindqvist
Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chloe Moretz e Richard Jenkins
116 Minutos

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