Archive for the ‘ Romance ’ Category

Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris)

Se em Tudo Pode Dar Certo os fãs de Woody Allen puderam votar a depositar grande fé na capacidade criativa do diretor, e em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, essa confiança foi abalada, agora em Meia-Noite em Paris o cineasta americano comprova ser ainda capaz de grande obras. Estrelado por Owen Wilson e passado na romântica capital francesa, o filme pode ser visto como uma reedição mais madura e superior do clássico dos anos 80 de A Rosa Púrpura do Cairo, dando novamente a falsa impressão de que Allen é apenas um plagiador de si mesmo.

Owen Wilson vive Gil, um bem sucedido roteirista de cinema em Hollywood que se considera um fracasso por não ganhar a vida como realmente deseja, escrevendo literatura. Durante uma viagem à Paris com sua noiva Inez (Rachel McAdams), ele decide aproveitar o clima da cidade para se inspirar e terminar seu romance, que ele acredita ser o primeiro passo para ele ser reconhecido como escritor, podendo então abandonar de vez o cinema. Lá, porém, o casal encontra o pedante amigo de Inez, Paul (Michael Sheen), o que faz com que Gil prefira estar cada vez mais sozinho.

Em um de seus passeios solitários pela cidade, no entanto, ele descobre uma espécie de portal do tempo que o leva à época que considera a melhor de todas, os anos 20. O roteirista então tem a chance de conversar a respeito de seu novo trabalho com grandes ídolos, como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway ou T.S. Eliot, e assim pode melhorar sua obra enquanto vive entre os dois tempos. Romântico, ele percebe que esta chance o permite enxergar sua vida nos tempos atuais de uma forma muito mais clara e realista, de uma forma que ele nunca tinha notado antes.

Apesar de Woody Allen, mostrando o seu grande amor por Paris, mudar sua forma de iniciar um filme, a identidade do diretor está óbvia no primeiro dialogo. Ainda sem mostrar os atores, é difícil dizer que aquele personagem dos minutos iniciais é interpretado por Wilson, e não pelo próprio Allen. Owen consegue interpretar Woody como talvez apenas ele próprio consiga, mostrando um excelente trabalho de atuação. No entanto, ele não fica sozinho. Apesar da presença de Carla Bruni, o elenco em geral faz um grande trabalho, com destaque especial para o Salvador Dali de Adrien Brody, que vive alguns dos melhores momentos da trama.

Mas não é apenas pela atuação de Owen que Woody se mostra presente no personagem. É quase impossível para quem conhece o diretor novaiorquino não pensar que não é Gil quem considera o cinema uma forma menor de arte, mas o próprio Allen. Assim como quase todos os seus filmes, Meia-Noite em Paris também deixa o espectador sempre com a impressão de que cada movimento do protagonista é um momento auto-biográfico. Mais do que isso, o filme se encaixa como uma recriação de temas do diretor, o que é comum em sua carreira. Como se ele fosse um gênio perfeccionista que sempre refaz o mesmo trabalho na esperança de sempre se superar.

Uma coisa, porém, está diferente em relação aos filmes de décadas anteriores, desta vez Woody tem muito mais maturidade para tratar destes mesmos temas que é apaixonado desde a sua juventude. Assim, Meia-Noite em Paris pode ser visto como a última parte de uma trilogia, que começa em 2009 com Tudo Pode Dar Certo, e continua em 2010 em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Juntos, os três filmes mostram que, ao contrário do que parece, Woody Allen é uma pessoa com o pé no chão, que acredita que, independente de qualquer coisa, a realidade sempre vai superar a ficção.

Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011, EUA)
Direção:
Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams e Kathy Bates
100 Minutos

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger)

Aos 75 anos e mais de 40 filmes no currículo, Woody Allen não precisa provar a ninguém sobre sua capacidade de fazer um bom cinema, mesmo quando o acusam de repetitivo. É o que acontece novamente em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Realizado logo após Tudo Pode Dar Certo, um dos maiores trabalhos do cineasta novaiorquino, o longa retoma temas já conhecidos na filmografia de Allen, e já é mal visto acusado ser mais do mesmo.

Desta vez, uma de suas ousadias, que também pode não agradar o público, foi ter escolhido como a mocinha de seu filme a atriz Gemma Jones, que já está próxima dos 70 anos. Ela vive Helena, uma mulher recém abandonada pelo marido Alfie (Anthony Hopkins), que prefere aproveitar melhor a juventude de sua terceira idade ao lado de outras mulheres. Se em Interiores, de 1978, a esposa largada perde a razão de viver, desta vez a personagem tenta de toda forma descobrir este sentido da vida longe do ex.

E então que surge um dos temas mais recorrentes dentro do trabalho de Woody, a ilusão. Helena decide trocar o racional dos tratamentos psiquiátricos pelas sessões constantes de terapia com uma cartomante, que lhe diz o que toda mulher solitária deseja ouvir: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Enquanto Alfie fica noivo de uma atriz sensual com metade da sua idade, mas pouco caráter, Helena se sente feliz em ter a esperança de ainda ter a chance de viver um grande amor.

Assim como a Cecilia de A Rosa Púrpura do Cairo, ela vive intensamente sua ilusão enquanto todos à sua volta se desesperam com a realidade. Alfie percebe que pode ter cometido um erro, enquanto a filha do casal, Sally (Naomi Watts), não suporta o peso de ter de sustentar o marido, o fracassado escritor Roy (Josh Brolin), que passa os dias em casa para escrever seu novo livro, mas prefere ficar espionando a bela vizinha (Freida Pinto) pela janela. Mesmo ele sendo escritor, no entanto, prefere se apoiar na realidade em vez de acreditar na ilusão que traz felicidade à sogra.

E a realidade, cruel a todos, parece não abalar Helena. Sempre apoiada pela cartomante, ela não teme seu futuro, já que acredita conhecer parte dele. Mesmo tudo indicando que a mulher que a ajuda é uma farsante, ela prefere se agarrar àquela ponta de esperança que lhe é dada a cada sessão. Ela quer apenas seguir em frente, usando aquela sua ilusão como uma forma de aguentar toda a realidade a sua volta, assim como faz Woody Allen, com sua invejável marca de um filme por ano.

Um dos que mais defendem, a partir de suas obras, o conceito de cinema de autor, o novaiorquino não precisa criar enredos mirabolantes e originais para chegar a um filme de qualidade. Se Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos não está entre os melhores longas do diretor, isto não quer dizer que seja descartável. Até porque, um Woody Allen menor ainda é sempre um bom filme.

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010, EUA)
Direção:
Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Gemma Jones, Naomi Watts e Anthony Hopkins
98 Minutos

Ervas Daninhas (Les Herbes Folles)

O francês Alain Resnais nunca pode ser considerado um cineasta convencional. Na década de 60, mesmo do movimento da Nouvelle Vague, que se identificava com seus filmes, ele não chegou a participar. Aos 87 anos, Resnais continua ativo, produzindo filmes como Ervas Daninhas, que chega aos cinemas brasileiros neste Natal. A produção, mais do que demonstrar esta característica independente e vanguardista do diretor, revela que ele sabe bem usar a maturidade e a falta de pudores que se ganha com ela.

No filme, seguimos a cômica e, muitas vezes, dramática relação entre Georges e Marguerite depois que ela é assaltada e ele encontra sua carteira no estacionamento de um Shopping Center. Ao ver a fotografia daquela solitária dentista, o homem alimenta uma obsessão. Mesmo casado, pai de dois filhos, ele sabe que só irá sossegar quando se aproximar da mulher, mesmo que seus objetivos não estejam tão claros para ele. Esta complicada relação vai afetar Marguerite, que também fica sem saber se toma uma atitude para se livrar de Georges ou se entra no jogo.

O nonsense toma conta da película durante quase todo o tempo. Em um filme usual, esta história poderia render um suspense digno de exibição em um sábado a noite em algum canal de TV aberta. Quando se trata de Resnais, é diferente. Sua narrativa é solta, o filme não tem as amarras que teria se realizado por um jovem diretor. O francês foge do comum, a começar pelo visual de sua heroína. Apaixonada por aviação, Marguerite nada mais é do que uma versão feminina e melancólica do Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupery.

O fascínio, a fantasia, não ficam apenas nos trajes da personagem. O filme segue o tom. Que importa para a esposa de Georges, se ele está obcecado por outra mulher, se deseja ter um caso com ela. Não é este o conflito que o diretor explora em Ervas Daninhas, ele prefere deixar isto para os diretores prisioneiros do comum. Resnais quer ir além, quer explorar esta doentia relação. Ele quer mostrar até onde podem ir estas ervas daninhas que crescem em nossas mentes, nos chamando a cometer atos contra nossa própria natureza.

Georges é apaixonado por cinema, e é principalmente o cinema que o diretor quer atingir. Mais do que uma metalinguagem, Ervas Daninhas é uma sátira a sua própria natureza, à sétima arte. Mesmo quem ainda insistir em levar a sério esta obra, desiste no momento em que, após um beijo apaixonado, surge na tela um hollywoodiano The End, para depois o filme seguir em frente como se nada houvesse acontecido. Mesmo nos trailers já se percebe o caráter subversivo e satírico do diretor, que abole os métodos de seu próprio ofício. Em um cenário de ode às grandes produções, Ervas Daninhas é a prova de que a genialidade do cinema vai além de fórmulas prontas.

Ervas Daninhas (Les Herbes Folles, 2009, França)
Direção:
Alain Resnais.
Roteiro: Alex Reval e Laurent Herbiet.
Elenco: André Dussollier, Sabine Azéma e Emmanuelle Devos.
104 Minutos

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