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O Limite do Cinema Brasileiro

Em 2009, nosso cinema viveu um de seus melhores momentos. Apesar de o Brasil ter poucas salas, a maioria concentrada em grandes cidades, a popularização do filme brasileiro é cada vez maior, e esse cinema que há muito vem engatinhando pode sonhar em andar com pernas próprias em pouco tempo. Pouco se sabe, porém, que o cinema chegou aqui pouco depois de sua invenção, ainda em 1896. Trinta e cinco anos depois, era produzido no Rio de Janeiro um filme que até hoje é tido como um grande marco a ser batido em nossa cinematografia: Limite, de Mário Peixoto.

De 1931, Limite nunca foi um sucesso popular. Lançado para poucas exibições, chamou a atenção daqueles que já apreciavam aquela nova arte. Ainda hoje, o filme de Mário Peixoto é considerado pela maioria dos especialistas como o melhor brasileiro de todos os tempos e um dos melhores do mundo. Glauber Rocha, um dos nossos maiores cineastas, chegou a declarar que o filme foi um “acontecimento trágico na história do cinema brasileiro”, já que depois dele, ninguém seria capaz de fazer nada tão bom. Glauber, a principio, criticou sem ver a obra, depois que assistiu reconheceu seus méritos e lutou para, se não superar a obra, superar ao menos o peso dela.

Peixoto tinha pouco mais de vinte anos quando fez Limite. Na França, passando em frente a uma banca de jornais, viu uma foto que não conseguiu mais esquecer: uma mulher, com mãos masculinas algemadas à sua frente. A partir desta imagem, elaborou o argumento sobre três pessoas perdidas em um barco. Duas mulheres e um homem desesperançados, náufragos não apenas no mar, mas em suas próprias vidas. Enquanto ficam quase inertes naquela situação, lembram acontecimentos que os levaram a chegar ali e todos os seus limites.

Mesmo comparando com filmes atuais, o de Mário Peixoto ainda é muito ousado, principalmente pela fotografia de Edgar Brazil. O longa tem enquadramentos que mesmo hoje, com filmadoras leves, não é comum encontrar. Peixoto e Brazil abusam de closes, passeiam com a câmera, repetem imagens e trazem ângulos incomuns sem medo. Antes de contar uma história, a narrativa é poética, uma reflexão sobre o tempo e tudo o que ele pode acarretar, sobre os limites de cada um.

Nem Mário foi poupado dessa limitação. Morto em 1992, aos 84 anos, o cineasta nunca foi capaz de realizar seu segundo filme, mesmo tendo buscado durante toda a sua vida. O peso da obra, que não deixou herdeiros, era grande demais, tanto que depois dele o cinema se encaminhou para a chanchada, despretensiosa e de pouco valor artístico, em uma tentativa de esquecer a sombra deste sucesso. Talvez isto esteja mudando, mas poucos percebem que não é preciso esquecer Limite, não é preciso superá-lo, basta saber que o Brasil já foi capaz de uma obra tão grande. Quem percebe seu próprio limite pode ir muito mais longe.

Assista a um trecho do filme:

A Função Onírica da Sétima Arte

Quando se diz que a imagem vale mais do que mil palavras, talvez não esteja sendo levada em conta a opinião do cineasta polaco Jean Epstein. No entanto, o que o intelectual revela em seu texto O Cinema do Diabo, um apanhado de quatro de seus escritos que pode ser encontrado no livro A Experiência do Cinema, do teórico paulista Ismail Xavier, não somente reafirma o dito popular, como o leva a uma leitura da vida muito mais profunda do que a imaginada pela maioria dos que o usam.

Mais do que apenas uma indústria do entretenimento, o cinema é, segundo o texto, uma maneira de subverter a ordem vigente, mais do que qualquer texto escrito, pela impossibilidade deste de atingir as emoções irracionais. Isto principalmente depois do sistema proposto pelas teorias de René Descartes, fazendo com que a arte seja uma das poucas formas de sobreviver a um mundo que leva estes conceitos ao limite.

É muito comum se ouvir dizer que este ou aquele filme, como Tropa de Elite, ou mesmo que algum jogo de videogame, é prejudicial à cabeça daqueles que o assistem, já que induzem à violência. Nestes pré-julgamentos, leva-se em conta um dos pontos levantados por Epstein, o de que o cinema, a imagem em movimento, tem sobre a mente humana uma influência maior do que qualquer outro instrumento, levando as emoções para onde quiser.

Na verdade não seria maior do que qualquer instrumento. Apenas um conseguiria ser maior ou igual: o sonho. É sabido por aqueles que estudam o aspecto psíquico dos homens, que o sonho é uma forma da mente expurgar alguns tipos de comportamento que não podem ser mostrados na realidade, ou seja, um tipo de higienizador mental sem o qual o equilíbrio psíquico não é possível. Assim, existem as teorias de que os loucos ou psicopatas não sonham, ou sonham pouco, o que faz com que eles tenham que exprimir estas suas vontades no mundo exterior.

O cinema, como uma forma do homem fabricar sonhos, consegue funcionar desta mesma forma, diria o polaco. Desta forma, um filme que fala sobre os aspectos mais vis e baixos da sociedade são muito mais úteis e corretos do que algum que só demonstre qualidades e emoções boas. A obra audiovisual serve também como um exorcista do homem, assim como o sonho, ou mesmo como toda forma de arte, mas de uma forma mais abrangente.

A arte tem uma função muito mais importante do que a simples questão estética ou histórica. O homem pode usar a sua sensibilidade para criar obras em que seus pensamentos mais primitivos podem vir à tona e se tornar algo bom. Não raro é uma ONG se instalar em alguma favela ensinando crianças sobre música, pintura, artes cênicas ou circo. Ultimamente, até mesmo o cinema tem entrado em pauta nestas escolas voluntárias. Talvez fosse mais fácil ensinar aos jovens alguma profissão, algo que lhes dê sustento no futuro, o que isto não trará, porém, o que está em jogo não é a felicidade, mas a evolução das mentes.

É possível que este tipo de atitude dos mais abastados não tenha este objetivo. Pode ser apenas uma forma de tirar o jovem da marginalidade, fazendo com que se tenha um pouco mais de paz e sossego nos bairros mais ricos no futuro. Mesmo assim, além de colocar para fora a violência que poderia nascer destes alunos, esta medida pode chegar a alcançar um objetivo ainda maior, elevando intelectualmente estas cabeças, trazendo indiretamente o futuro melhor que se buscaria com as oficinas profissionalizantes.

Mais do que a arte comum, a que usa meios audiovisuais, como o cinema, consegue ir além. A imagem em movimento tem uma grande influência sobre as pessoas, seja para o bem ou para o mal. Quando um filme como Cidade de Deus ou Tropa de Elite se torna um sucesso, expondo a violência de uma forma bem produzida, faz o espectador ter a sensação de que foi ele quem matou os bandidos cariocas. Com o tempo, esta banalização da violência, que é criticada pela maior parte das pessoas, faz com que se apague nestes espectadores uma reprimida vontade de matar.

Para Jean Epstein, o cinema é como um imitador da psicanálise, o que explica que ambos nasceram com pouco tempo de diferença, em uma época em que eram muito necessários. O cineasta chega a chamá-lo de “arte-medicamento” ou de “prazer-válvula de escape”, para indicar sua certeza de que este pode servir com a função dos sonhos. Mais do que isto, ele revela que este é um instrumento transcartesiano.

Depois que Descartes decretou seu cogito, a racionalização tomou conta do pensamento humano, chegando a uma situação insuportável no século passado, o que só foi aliviado pela psicanálise e pelo cinema. Estes, ao mesmo tempo, puderam dar aos que os procuram, a dúvida existencial. Se “Penso, logo, sou”, quem eu sou? O que pode indicar que o mais certo pode ser “Penso, logo, não sou”, já que se descobre a imperfeição e o que está em falta. Se o pensamento cartesiano pode levar a humanidade à loucura, cabe ao cinema, este paladino da poesia, a salvação do planeta. Ou, ao menos, encontrar uma forma de se suportar as restrições cada vez mais presentes na civilização moderna.

O Cinema Circense de Fellini

Numa madrugada, de sua cama, um garotinho de oito ou nove anos escuta um barulho vindo da rua. Ele olha pela janela e vê, inflando na frente de sua casa, uma estranha estrutura, uma construção que não conhecia. Imaginou que fosse algum barco, ou qualquer coisa do mar. Na manhã seguinte, eufórico e curioso, pergunta à mãe sobre a novidade. “É o circo. Se você não for bom, eu digo a esses ciganos pra te levarem com eles”, diz ela. Assim começa o filme Os Palhaços, de Federico Fellini, numa cena em que o cineasta italiano conta como se deparou pela primeira vez com esse inusitado elemento que iria fazer parte de sua vida. “Da primeira vez que entrei numa lona de circo senti essa embriaguez, essa comoção, essa exaltação, a sensação imediata de estar em casa, e não era nem hora do espetáculo, com o barulho das pessoas que se esmagam e a música que enche o ar de ruídos ensurdecedores; não, era de manhã cedo”, disse Fellini em seu livro Fazer um Filme.

Para ele o cinema sempre foi uma espécie de circo, e este o precursor ideal de toda forma de espetáculo. Tanto o circo quanto o cinema têm seus “artistas extravagantes, operários musculosos, técnicos, especialistas estranhos, mulheres bonitas a ponto de nos fazer desmaiar, costureiros, cabeleireiros, gente que vem de todos os cantos do mundo e que se entende numa babel de línguas”, como cita no livro. Fellini já confessou que não é grande entendedor do circo, assistiu a poucos espetáculos, porém o circo sempre esteve nele. Assim ele foi quem melhor representou este universo no cinema, ao lado de Charles Chaplin – artista que começou sua carreira no circo, foi um ator-palhaço e, entre outros, dirigiu O Circo.

Seu primeiro filme de sucesso, de 1954, Oscar de melhor filme estrangeiro em 1956, A Estrada da Vida, foi também o primeiro filme dedicado à sua mulher, Giulietta Masina, que interpreta a protagonista Gelsomina. Vendida pela própria mãe a Zampano, um artista mambembe interpretado por Anthony Quinn, Gelsomina é uma pobre e ingênua moça que passa a apresentar os shows de seu inesperado parceiro nas praças de povoados e de pequenas cidades. Uma interpretação simplista, com graça em seus gestos mínimos, como um palhaço, que não precisa de palavras para indicar ao público seus sentimentos, faz de Giulietta o grande charme desse filme. “É uma atriz-palhaço, um autêntico palhaço” dizia onde e quando Fellini sobre sua esposa. “O talento de palhaço de um ator, a meu ver, é o dom mais precioso, o sinal de uma vocação aristocrática para a arte cênica”.

Gelsomina se assemelha muito a Cabíria, outra personagem interpretada por Giuletta Masina, que nasceu no filme Abismo de um Sonho, de 1951. O papel era pequeno, mas em 1957 ganhou um filme próprio, Noites de Cabíria. Assim como Gelsomina, Cabíria também faz o tipo ingênua, sonhadora, com um olhar pueril, numa interpretação também inspirada em palhaços, onde não é preciso dizer pra se fazer entender. Cabíria é uma prostituta da periferia de Roma que sonha em sair dessa vida e encontrar um homem que a faça feliz, mas sua inocência faz com que seja facilmente enganada pelos homens que encontra. Chega até a achar que o homem que a jogou no mar e fugiu com seu dinheiro, no início do filme, a amava. Somente com a ajuda de uma amiga, Cabíria se dá conta de que seu amado não sumiu por ter ido buscar ajuda, mas que tentou matá-la e fugiu para não ser preso.

Fellini nos diz que tanto Gelsomina quanto Cabíria, assim como os palhaços, são seres assexuados. Elas são augustos, palhaços-crianças, não têm maldade. Os palhaços são originalmente divididos entre os clowns brancos e os augustos. Os clowns brancos são sérios, inteligentes, elegantes. Já os augustos são desbocados, bagunceiros, brincalhões. Quando Fellini não queria ver mais palhaços em seus personagens fez Os Palhaços, de 1971, dedicado a esses dois tipos, para tentar se exorcizar, como fazia sempre que se cansava de um assunto. Foi assim também que fez um filme dedicado à Roma (Roma de Fellini) e à sua vida em sua cidade natal, Rimini (Amarcord). Para não precisar mais incluir as cidades em partes de seus filmes, ele dedicou um filme inteiro a cada uma delas.

Os Palhaços, documentário feito para televisão, tenta descobrir se os palhaços estão desaparecendo. Fellini tenta mostrar nesse filme que a magia do circo ainda é possível. Passando por vários circos, entrevistando diversos palhaços, mostrando o dia-a-dia do espetáculo, reconstituindo cenas, Fellini e sua equipe, muitos deles artistas de circo, vão cruzando Roma em busca de uma resposta. Chegam a se deparar com um palhaço que lhes diz: “Por que fazer um filme sobre palhaços? O mundo do circo já não existe. Todos os verdadeiros palhaços desapareceram. O circo não tem nenhum significado na sociedade atual”. Mas, logo, um antigo palhaço lhe dá uma possível resposta à sua dúvida: “Os palhaços não desapareceram, as pessoas que não sabem mais rir”.

Publicado originalmente no Esquinas de SP, jornal-laboratório do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero
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