Archive for the ‘ Livros ’ Category

O Leitor (livro)

Será que quando a pessoa nasce, ela é responsável por tudo o que seus antepassados fizeram até então? Quando alguém se apaixona, ela deve carregar nas costas todo o peso da vida do outro, independente de ainda não fazer parte daquilo quando aconteceu? Como se pode questionar quem você ama e lhe demonstrar afeto quando sabe que o fardo dessa pessoa é maior do que você pode carregar? Esse drama de consciências pesadas e amores mal realizados é o centro do livro O Leitor, de Bernhard Schlink, que a editora Record lança na carona do filme de Stephen Daldry.

Michael Berg é um homem fechado, amargurado, que não consegue se resolver sentimentalmente por ficar preso ao seu passado. Aos 15 anos, ele se envolve com Hanna Schmitz, 20 anos mais velha, com quem aprende muito sobre a vida e a sexualidade. Na cama, um ritual. Ele lia para ela, depois tomavam banho e faziam sexo, antes que ele tivesse que voltar para casa. Meses depois, após ela tê-lo deixado, sem explicações, ele a descobre em um julgamento de um crime nazista, como a principal acusada.

O conflito do personagem se dá em dois momentos, primeiro por ele ainda se perceber amando uma mulher que foi cúmplice de um dos crimes mais bárbaros do século XX. Depois, que ele nota que há nela um segredo, uma vergonha, pela qual ela prefere ser condenada como assassina em vez de revelar. Berg, estudante de direito, procura saber qual o certo: dizer a todos o que sabe e trair a mulher que ama, ou deixar que ela se afunde por algo que não pode ser responsabilizada.

Em um momento do livro, logo após a decisão de Berg, ele diz não sentir mais frio, mesmo estando em uma nevasca. A ausência de sentimento é o resultado de seu medo de amar alguém maculado por um crime brutal, além da culpa eterna por acreditar que podia ter feito a diferença mas errou. Michael é frio, seus relacionamentos não funcionam. Seus pais sentem a sua distância, assim como a esposa e a filha. A única pessoa a quem ele quer se dar é Hanna, mas a Hanna de quando ele ainda não sabia quem ela era.

Setenta anos após o início da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha começa a se livrar dessa dor, dessa culpa que Michael Berg sentiu. Bernhard Schlink nasceu em 1944, não chegou a conviver com a guerra, mas acompanhou de perto o pós-guerra, o momento em que as gerações seguintes sofriam por ter em seus pais cúmplices de tamanha atrocidade. Talvez um fardo difícil demais para todo um povo carregar, mas que é impossível de se deixar de lado, de se esquecer e tocar a vida para frente.

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Zodíaco

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Nas décadas de 60 a 80, um serial killer aterrorizou o norte da California, sendo procurado pela polícia de várias cidades, mas nunca encontrado. O nome dele era Zodíaco. Robert Graysmith, um cartunista do jornal San Francisco Chronicle, que sempre estava a par das investigações sobre o caso, nunca se deu por satisfeito pelo trabalho policial e decidiu investigar por conta própria. O resultado é o livro Zodíaco, lançado no Brasil pela Editora Novo Conceito ao mesmo tempo em que o filme de David Fincher chega aos cinemas.

Dividido em 20 capítulos, o livro-reportagem traça de forma cronológica tudo o que Graysmith descobriu sobre o caso, de 1969, quando o assassino passou a agir como um serial killer, até 1985. Zodíaco era um criminoso preocupado em chamar a atenção, o que o fazia escrever cartas para redações de alguns jornais, um deles o Chronicles, o que permitiu um grande acesso do autor aos principais envolvidos no caso. Mesmo não sendo jornalista, mas trabalhando com eles, Graysmith apurou incansavelmente tudo o que pôde.

Metódico e detalhista, o cartunista descreve de forma minuciosa diversos momentos do que investigou. No livro, é possível ver as vítimas caminhando em direção à morte, pela forma como ele relata, rua a rua, movimento a movimento, os últimos passos deles. Os procedimentos policiais e médicos também são descritos com precisão. Diferenças entre armas, calibres e munições são contadas ao leitor para deixar mais claro o processo.

Cada capitulo é intitulado com o nome de seu personagem principal, que na maioria dos casos é o próprio Zodíaco, mas em outros momentos chega a ser vítimas ou suspeitos. Na incerteza sobre quem é o verdadeiro vilão, o autor demonstra suas teorias, principalmente nos últimos momentos do livro, sobre quem ele acha que pode ser ou não. Cabendo ao leitor o julgamento final.

Além de mapas e retratos falados, o livro é ilustrado com algumas das diversas cartas e enigmas que o assassino enviava aos jornais, à polícia, ou à cidadãos, como Paul Avery, jornalista colega de Graysmith. Avery, que aparece como elemento importante no filme de Fincher, pouco se mostra no livro. Aqui, o personagem mais recorrente é outro, o detetive Dave Toschi. Porém não se pode dizer que é o protagonista, que em alguns momentos pode ser o próprio narrador e em outros ser mesmo o Zodíaco.

Sem uma pretensão de apresentar respostas, mas apenas de detalhar os fatos, o autor apresenta ao leitor o resultado de anos de pesquisa, própria e em torno dos arquivos policiais. Os relatos imparciais, no começo da obra, vão se tornando parciais à medida que Robert vai inclinando sua busca a um ou outro elemento, mas isso sempre é deixado claro, para que ninguém seja manipulado impunemente.

Por um Cinema Sem Limite

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Um dos fundadores do Cinema Marginal, com O Bandido da Luz Vermelha, de 1969, o cineasta catarinense Rogério Sganzerla pode ser considerado um dos mais importantes do país, mesmo não tendo uma filmografia ampla e nem mesmo popular. Durante as décadas de 60 e 80 o autor, morto em 2004, escreveu textos que foram mais tarde reunidos e organizados formando o livro Por um Cinema sem Limite, reeditado em 2001 pela Azougue Editorial.

Na obra, Sganzerla traça sua teoria sobre o cinema, que consiste em separá-lo em dois: o cinema tradicional e o cinema moderno, do qual faria parte. Apesar dos artigos terem sido escritos em épocas diferentes e não estarem em uma ordem cronológica, o tema do livro é bem definido – diferente da maioria das coletâneas – sobre essa dicotomia entre o tradicional e o moderno. O discípulo do americano Orson Welles e do francês Jean-Luc Godard não economiza palavras em defender o seu estilo de cinema, que o faria fundar mo meio tempo, junto com Júlio Bressane, a corrente que se oporia ao Cinema Novo.

O tradicional, para Rogério, também chamado de Cinema da Alma, seria aquele cinema que se preocupa com os conflitos internos dos personagens, com filmes mais psicológicos – ou psicanalíticos – e filosóficos, como as obras do sueco Ingmar Bergman. Já o moderno, ou Cinema do Corpo, seria o filme “menos pretensioso”, que não quer mostrar os motivos do herói, apenas contar a história de uma forma mais direta, que seria o caso de Godard, ou mesmo do próprio Sganzerla.

O maior problema do livro é o radicalismo do cineasta, que insiste em deixar claro que, para ele, apenas o cinema moderno é válido, denegrindo a imagem de todos os que não seguem este padrão, inclusive diretores renomados, como o próprio Bergman. Tentando dividir o fazer filmes em dois, ele acaba de certa forma se contradizendo, quando supõe que o tradicional segue os Lumière e o moderno segue Meliès, ambos clássicos. Ainda mais quando diz que a obra maior do Cinema do Corpo é Cidadão Kane, de 1941, tornando assim equivocada a terminologia “tradicional” e “moderno”.

Apesar destes deslizes, Por um Cinema sem Limite merece alguma atenção. As teorias de Rogério Sganzerla fazem bastante sentido, independente do posicionamento em que ele se coloca diante delas. Além disso, o cineasta se propõe a fazer analises de obras e autores de grande importância, como um capitulo dedicado ao fundador da Nouvelle Vague, Godard. É inegável o conhecimento do brasileiro, tanto na sua forma de escrever, como de fazer filmes. Assim, é sempre válido buscar conhecer mais de suas obras.

O Pequeno Príncipe

Sempre tive curiosidade pelo encanto que O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupéry, causa nas pessoas. Ouço falar tanto do livro, que cada vez mais a vontade de ler aumentava. Por não ter o hábito, não o li na época certa, na infância. Recentemente decidi que iria ler, mas ao pegá-lo e sentir que era realmente um livro infantil, aquela vergonha de adulto, sujeito sério que sou, falou mais alto e tentei Terra dos Homens, livro do autor para os mais crecidinhos. Primeira semana de aula, tanto a se ler, apesar do interesse não avancei na leitura.

Agora ressurgiu a oportunidade de, enfim, ler o tal sonho de consumo, e em poucos minutos concluí mais esta missão. Entendo agora este tal encanto que causa. O livro, mais aos adultos que às crianças, remete a uma ingenuidade rara, que só se encontra nos mais novos. Quando a gente cresce acaba se preocupando demais com coisas inúteis e não percebemos que existe coisas muito mais importantes a se fazer, como por exemplo, olhar mais para as pessoas.

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“Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas”, diz a raposa do livro. Acho que hoje em dia isto pouco importa para a maioria. Parece muito fácil cativar e depois abandonar, e assim os corações parecem cada vez mais duros por terem sido deixados de lado. Há uma grande dificuldade naquilo que seria tão simples às crianças: manter relações independente de qualquer ideologia, gostos, livre de qualquer tipo de preconceito.

Ou não. Hoje em dia é raro ver crianças sendo crianças. Elas estão preocupadas demais em serem sérios, ganhando seu sustento, seja rebolando em algum programa dominical ou vendendo balas nos cruzamentos. Acho que mesmo as crianças precisam dessa ingenuidade que aparece no Pequeno Príncipe. Como diria Tom Zé, “ah meu Deus do céu, vá ser sério assim no inferno!”.

Me sinto aqui um pouco como um simples reprodutor de clichês, mas talvez seja um pouco mais que isso – e espero que sim. Em determinado momento, a mesma raposa, sábia raposa, disse que “o essencial é invisível aos olhos”. Acho que é preciso deixar de enxergar a vida um pouco com os olhos e passar a prestar mais atenção às coisas. Vamos ver se é tão fácil lidar com isso, afinal “sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci”.

Parábola do Cágado Velho – Pepetela

Ulume e de Munakazi estão ligados pelo destino, mas nada será fácil para eles. Em dialetos africanos, os nomes dos dois quer dizer, respectivamente, homem e mulher, e como tantos homens e mulheres no mundo, os dois vivem uma história que acaba se confundindo com a história de sua terra. Ulume é um homem já maduro, casado com Muari, mas disposto a casar de novo com a jovem Munakazi, numa Angola onde a tradição ainda permite a poligamia para os homens.

Ao mesmo tempo, dois exércitos, os “nossos” e os “inimigos”, travam uma guerra civil em todo o país, que aos poucos vai destruindo a vida de um povo que nada tem a ver com toda essa disputa e nem mesmo sabe dizer quem são os “nossos” e quem são os “inimigos”. Só sabem que qualquer dos dois exércitos que apareça no kimbu, a tribo deles, significará roubos e mortes que deixarão marcas nas vidas desses moradores. O kimbu onde vivem ainda conserva as tradições, mas Munakazi representa a modernidade. Munakazi representa a nova mulher, forte, independente, deixando Ulume perdido entre a tradição e os novos tempos. Dentro de tantos dilemas, de tantas dificuldades, o homem só pode contar com a ajuda de um cágado velho a quem ele visita quase todos os dias, desde criança.

O cágado, o homem e a mulher, a tradição e a modernidade, a guerra e a paz, os nossos e os inimigos, nenhum deles aqui representa o protagonista desta história. O protagonista é o tempo, que sempre mostra os caminhos a seguir. Tudo está preso ao tempo.

O livro Parábola do Cágado Velho, do angolano Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos, conhecido como Pepetela, é um dos representantes da nova literatura de língua portuguesa que desperta no continente africano. Junto a Pepetela, temos o também angolano José Eduardo Agualusa, o português criado em Angola, José Luandino Vieira e o moçambicano Mia Couto, que juntos, cada vez mais, fazem com que essa literatura luso-africana conquiste espaço onde a cultura africana pouco tem de representatividade.

Sobre o livro, Pepetela nos diz que ele “deve ser lido e esquecido logo que fechado. Para que não desperte os maus espíritos da intolerância e da loucura. Os mais velhos sabem, não devemos relembrar aquilo que nunca aconteceu”.

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