Capitães da Areia

A criança é e sempre foi um dos símbolos maiores de esperança no futuro, mas o que dizer daquele menino ou menina de rua, de quem pouco se acredita que exista algum porvir? É exatamente sobre os sonhos e desilusões destes que trata o romance Capitães da Areia, de Jorge Amado. Nas telas dos cinemas, a história chega como uma homenagem ao centenário do autor feita por sua neta, Cecília Amado, que mostra ter um cuidado especial com os personagens do avô, ao mesmo tempo em que deixa claro que não está neste papel apenas por seus laços sanguíneos, mas porque tem capacidade para o posto.

Na Salvador dos anos 50, um grupo de meninos de rua vivia sua própria sociedade sob a liderança do ousado Pedro Bala. Ladrões, malandros, espertos, os garotos aproveitam tudo o que podem da cidade que os excluiu, e sabem que têm que proteger uns aos outros para se manterem como um grupo forte, os temidos Capitães da Areia. Ao lado de Bala, para armar os planos, o bando conta com a sabedoria do Professor, um jovem que tem a convicção de que seria um grande artista, não fosse um bandido. E é com a certeza de que são foras-da-lei, que eles sobrevivem e superam seus problemas.

A vida do grupo, no entanto, fica tumultuada com a presença de Dora, que acaba de perder seus pais vítimas de um surto de varíola. Levada para junto ao grupo pelo Professor, a menina causa desentendimentos, já que nunca se aceitou mulheres entre os capitães. Alvo do desejo de muitos dos garotos, ela também faz despertar o amor tando em Bala como no Professor, e ainda assim tem uma relação quase maternal com outros meninos. Além dos problemas dentro do grupo, os garotos ainda enfrentam a disputa com um outro grupo de menores e o cerco da polícia, que tenta deter os famosos capitães.

Vistos sob a ótica do dia a dia em uma grande metrópole, gente como os personagens do filme são somente bandidos, criminosos que nasceram já com o dom da maldade. Aqui, no entanto, o ponto de vista é outro, é possível viver a rotina deles. Quando Dora chega ao grupo, e é recebida com violência, o Professor faz questão de desfazer a primeira impressão, são todos bons meninos. Eles roubam, enganam, trapaceiam, e até usam da força, mas apenas por questão de sobrevivência. A menina, esperta, logo diz a todos a verdade óbvia, eles são apenas crianças que pensam que são homens.

Se Jorge Amado foi mestre ao fazer cada personagem bastante carismático, apesar de seus defeitos, Cecília soube passar isso ao longa, principalmente na escolha dos desconhecidos atores. No entanto, mesmo que a história do livro seja boa, falta alguma coesão na tela. Com uma narrativa bastante fragmentada, o filme talvez funcionasse melhor dividido em episódios independentes em alguma série. Como a intenção foi o cinema, o resultado perdeu um pouco de seu peso.

Para compensar os problemas no texto, o filme conta com boas atuações, que consegue facilmente propôr um clima misto entra a fantasia e o drama. Se por vezes a fotografia parece um tanto careta para remontar a década de 50, em muitos momentos há cenas que surpreendem pela beleza, como quando os capitães estão em um parque de diversões. A trilha sonora, ainda, realizada por Carlinhos Brown, foge do óbvio mas consegue uma integração envolvente com as imagens.

A beleza e os defeitos do filme, fazem com que o espectador perceba a beleza e os defeitos desses meninos, desses Capitães da Areia. Cecília Amado consegue, ao seu modo, enxergar e apresentar em seu filme aquilo que há de bonito na miséria, já que é bobagem pensar que só se vive daquilo que é bom, mas que não custa nada sonhar. E é aí que o longa-metragem chega com o seu maior mérito, que é mostrar que apesar das adversidades, mesmo essas crianças de rua ainda tem o principal, a esperança.

Assista ao trailer:

Capitães da Areia (2011, Brasil)
Direção:
Cecília Amado
Roteiro: Cecília Amado e Hilton Lacerda
Elenco: Jean Luis Amorim, Robério Lima e Ana Graciela

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Contra o Tempo (Source Code)

Mesmo se valendo de fórmulas batidas, a ficção científica pode render bons trabalhos como é o caso de Contra o Tempo, filme dirigido pelo pouco conhecido Duncan Jones. Apesar de sofrer com diversos adiamentos em sua data de estreia, o longa que chega às telas nesta sexta-feira (30) tem um fôlego que o diferencia, para melhor, de grande parte da produção hollywoodiana atual, talvez vindo justamente do fato de Duncan, ou do roteirista Ben Ripley, não estarem ainda influenciados pela indústria.

No filme, Jake Gyllenhaal é Colter Stevens, um capitão do exército americano que percebe que algo está estranho em sua vida. Sem saber exatamente o que aconteceu, o oficial acorda em um trem em movimento ao lado de uma mulher que não conhece, e que insiste em chamá-lo de Sean. Stevens não sabe como foi parar neste local, nem mesmo o porquê aquela mulher age como se fosse sua amiga. Poucos minutos depois, porém, uma explosão acontece e todos que estavam naquele trem morrem.

Ao acordar, o capitão descobre que está na verdade dentro de um programa chamado “Código Fonte”, em que ele consegue viver os últimos oito minutos da vida de uma pessoa. Stevens, então, tem que voltar novamente ao trem, na pele de Sean, para tentar descobrir quem foi o responsável pelo atentado, evitando assim um incidente ainda maior do que o do trem. Ao mesmo tempo em que precisa investigar o caso, o oficial também tenta descobrir o que aconteceu em sua vida nos últimos anos, e saber um pouco mais sobre este estranho programa do exército.

Apesar da ideia do filme ser original, não é muito difícil comparar com outras obras, como o clássico Feitiço do Tempo, em que Bill Murray acorda toda manhã no mesmo Dia da Marmota, sabendo exatamente o que vai acontecer, mas sem ter noção de como sair daquela situação. Stevens, aqui, também vive uma espécie de Dia da Marmota eterno, mas em vez de ter que aguentar as 24 horas, ele tem apenas oito estressantes minutos. Porém, tempo o suficiente para se encantar com a beleza de Christina, vivida por Michelle Monaghan.

A diferença de tempo é facilmente explicada por dois fatores. Primeiro, desta vez apesar do interesse amoroso do personagem, não estamos em uma comédia romântica, mas em um filme de ação, que ficaria monótono caso o Capitão Stevens pudesse ter tanto tempo para encontrar o tal terrorista. Além disso, o ritmo de vida dos espectadores de cinema mudou. Se em 1993 a linguagem de videoclipe já fazia parte de outras produções audiovisuais, hoje é raro um trabalho para o grande público que ignore a agilidade dos vídeos musicais.

Fora as semelhanças com o clássico dos anos 90, e os clichês típicos de filmes de ação e ficção científica, Contra o Tempo agrada principalmente por não ter a pretensão de ser um grande filme, apenas um bom entretenimento. Como em um jogo de videogame, em que a morte não é o final, o espectador entra no ritmo do filme e tenta, junto com Stevens descobrir o que está realmente acontecendo, tanto dentro do trem, na busca pelo terrorista, como na vida do capitão fora daquela realidade paralela. Ainda, a química entre Jake e Michelle ajuda a tornar o longa mais agradável, cumprindo o seu papel.

Assista ao trailer:

Contra o Tempo (Source Code, 2011, EUA)
Direção:
Duncan Jones
Roteiro: Ben Ripley
Elenco: Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan e Vera Farmiga
93 Minutos

Família Vende Tudo

A ambição do ser humano pode ir bem longe, muito além de onde vai o caráter, a ética ou a moral, como bem exemplifica o cineasta Alain Fresnot em seu novo longa-metragem Família Vende Tudo, que estreia nesta sexta-feira (30). O filme, uma comédia popularesca e bastante escrachada, consegue transitar entre o humor e a crítica social, sem com isso se tornar pesado ou entediante. Com um elenco liderado por Lima Duarte e Vera Holtz, a obra ainda é destacada pelas atuações, principalmente a de Caco Ciocler, no papel de um cantor popular.

Lindinha, vivida pela bela Marisol Ribeiro, é a jovem filha de um casal de muambeiros endividados (Lima e Vera). Depois de a família perder tudo o que tinha em uma viagem voltando do Paraguai em que foram parados pela polícia, os pais da garota não veem problemas na intenção dela de ir para a cama com o famoso Ivan Cláudio, personagem de Caco Ciocler. Apaixonada pelo cantor, Lindinha quer apenas uma noite de amor com ele, mas seu pais têm outros planos.

Já induzida pela família para engravidar do músico, Lindinha faz de tudo para atingir o objetivo e acaba tendo sucesso. Um problema, no entanto, atravessa o caminho da família. Ivan Cláudio já é casado e tem outros filhos com a ciumenta Jennifer (Luana Piovani), que pode botar tudo a perder. A ambição dos personagens, cada um com o seu objetivo, faz com que se trave uma grande batalha entre eles.

Para criticar este comportamento comum de muitos brasileiros, de vender até mesmo a dignidade de sua filha por fama e dinheiro, Fresnot fez uma comédia que fala a língua do povão. Caco Ciocler, para viver o rei do Xique passou uma temporada ao lado de um cantor que vive bem essa realidade, Latino, que inclusive faz uma participação no filme. As cenas dos shows do cantor das telas são, inclusive, filmadas durante apresentações do próprio Latino. As semelhanças do músico da ficção e o da realidade são muitas, mostrando o cuidado com as atuações.

Família Vende Tudo, no entanto, não está perto de ser uma obra perfeita. Na ambição de dialogar com as massas, o filme fica popularesco demais, irritando muitas vezes o espectador. Uma boa definição do filme, seria com a frase célebre de um dos maiores clássicos do cinema nacional, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba”, disse o personagem em 1968, que pode ser aplicado aqui tanto na forma que o filme foi feito, quanto na reação dos personagens.

Não tão incomum é a história, apesar de parecer absurda a grande parte do público. Vera Holtz, falando sobre o filme, deixou claro que presenciou inúmeras vezes mães e pais de adolescentes as oferecendo para o prazer de atores famosos, na ingênua ilusão de que pudessem conseguir algo com tal ato. E é expondo este tipo de comportamento em situações que ultrapassam o limite do ridículo, que Fresnot pode fazer com que, após as gargalhadas do público, eles possam refletir se vale mesmo a pena colocar sua ambição acima de qualquer coisa.

 

Assista ao trailer:

Família Vende Tudo (2011, Brasil)
Direção:
Alain Fresnot
Roteiro: Alain Fresnot
Elenco: Marisol Ribeiro, Caco Ciocler e Luana Piovani
90 Minutos

A Serbian Film – Terror sem Limites (Srpski film)

Muito se falou sobre o polêmico A Serbian Film – Terror Sem Limites, mas pouco se reflete à realidade de longa-metragem que pretende ser um retrato metafórico do que é hoje a vida na Sérvia. Ao contrário da maioria dos comentários, não há nenhum recém-nascido sendo estuprado em cena, ainda que existam momentos fortes capaz de causar indigestão em muitos espectadores. Independente disso, não há qualidade no filme que justifique tantos comentários sobre a sua produção, mas nada explica impedir que se possa assistí-lo para chegar a este julgamento.

Considerado o maior ator pornô que a Sérvia já teve, Milos (Srdjan Todorovic) se aposentou para se tornar um simples pai de família. Sem um outro emprego, no entanto, ele percebe que o dinheiro que conseguiu juntar naquela carreira não deve durar muito tempo, e que ele precisa tomar alguma atitude para conseguir manter o nível de vida para ele, a mulher e o filho pequeno. Neste momento, Milos recebe uma proposta irrecusável de Vukmir (Sergej Trifunovic), um misterioso produtor de cinema.

Vukmir apresenta um contrato milionário para o ex-ator pornô para que este protagonize mais uma obra, mais artística e realista do que qualquer outro filme que já participou. Diante do valor que ganhará, que pode lhe dar uma boa vida por longos anos, Milos aceita a proposta. Durante as filmagens, no entanto, quando percebe o teor do filme, ele tenta desistir. Porém, algo acontece e ele acorda apenas três dias depois, sem contato com mais ninguém que conheça. Milos então parte em uma jornada para descobrir mais sobre este filme e saber o que aconteceu neste tempo.

Mesmo como uma metáfora política, A Serbian Film – Terror Sem Limites se mostra raso e ingênuo, tentando a todo momento contextualizar o espectador de uma forma superficial na realidade do país, em vez de apenas deixar isso subentendido. Há em muitos momentos diálogos forçados sobre os motivos que levaram o personagem de Vukmir a escolher a Sérvia como cenário para sua estranha obra-prima. É como se o diretor e roteirista Srdjan Spasojevic estivesse a todo momento gritando para que ninguém esqueça que esta é uma metáfora do país.

Não é difícil notar no filme referências ao sul-coreano OldBoy, vencedor do Grande Prêmio da Crítica de Cannes em 2004. Nos dois filmes temos um anti-herói que busca em sua própria memória o motivo que explique o drama vivido no momento. Em nenhum dos casos, aliás, esta resposta os liberta, apenas aumenta suas angustias. Porém, no filme asiático, o roteiro é muito melhor desenvolvido, sem a necessidade da polêmica pela polêmica. A Serbian Film sequer tenta explicar porque Milos não procura um outro emprego, ou mesmo se nega a aprofundar seus personagens.

Fica óbvio, então, que o filme foi feito com o intuito de chamar a atenção antes mesmo de ser visto, o que conseguiu no mundo todo. Aqui no Brasil, houve um movimento que tentou banir a obra, abrindo espaço para manifestações coléricas contra a censura que podia aparecer ali. Enquanto uns execravam o filme, dando a ele qualidades que não chegam a ter, outros defendiam o direito de expressão, mesmo que o longa pouco tivesse a dizer. Não fossem estas discussões, quase ninguém teria ouvido falar em A Serbian Film. De um modo ou de outro, a figura da Sérvia continua a mesma, já que o vazio da obra sequer consegue representar o país, como tanto bradou o diretor.

Assista ao trailer:

A Serbian Film – Terror sem Limites (Srpski film, 201o, Sérvia)
Direção:
Srdjan Spasojevic
Roteiro: Srdjan Spasojevic
Elenco: Srdjan Todorovic, Sergej Trifunovic e Jelena Gavrilovic
104 Minutos

O Homem do Futuro

O Brasil nunca teve grande tradição no cinema fantástico, mas esta imagem pode estar mudando com a consolidação do nome de Claudio Torres como um diretor do gênero. Com o lançamento de seu quarto longa-metragem, O Homem do Futuro, o cineasta mostra que não apenas sabe fazer uma grande obra dentro do universo da ficção científica, mas que sabe bem adequar um tema complexo ao público. Não apenas isso, Torres também demonstra uma habilidade de deixar suas obras com uma brasilidade mesmo que com temas recorrentes no cinemão americano.

Em O Homem do Futuro, Wagner Moura é o fracassado cientista Zero, que na falta de uma vida mais interessante, dedica o tempo que tem a desenvolver uma nova forma de energia. Com a certeza de que um dia terá uma descoberta que irá mudar o destino da humanidade, ele pretende não apenas ser reconhecido por isso, mas provar para Helena (Alinne Moraes), o amor de sua vida, que ela estava errada em tê-lo humilhado vinte anos antes, em uma festa da faculdade.

O invento, no entanto, dá errado, e Zero acidentalmente vai parar em 1991, justamente no pior dia de sua vida. Sabendo toda a dor que sofreu por todos estes anos pela rejeição de Helena, ele decide mudar o passado, contando para seu antigo eu não apenas a desgraça que vai se abater sobre a sua vida, mas como será o mundo no futuro, e como se dar bem com todas estas informações. No entanto, o fato de tentar consertar sua vida desencadeia uma série de transtornos que podem piorar ainda mais a sua relação com o seu grande amor.

Se conseguiu conquistar um público considerável com A Mulher Invisível, seu filme anterior, usando este universo fantástico aliado a um senso de humor tipicamente brasileiro, desta vez Torres também traz uma carga alta de romantismo e nostalgia, tendo um resultado ainda melhor. Mesmo com uma atuação pouco natural, o casal de protagonistas, Alinne Moraes e Wagner Moura, emocionam o espectador com a mesma facilidade com que o faz rir. Não distante ficam os coadjuvantes Fernando Ceylão e Maria Luisa Mendonça.

Apesar disso, é de lamentar que o cineasta tenha abandonado a veia mais contestadora de Redentor, seu primeiro longa, e abraçado de vez o cinema de puro entretenimento. Mesmo que o resultado seja bom, superior a grande parte da produção nacional, não rende qualquer tipo de reflexão futura. Com o mesmo tema, a viagem no tempo, o próprio Brasil já produziu o subestimado A Máquina, de João Falcão, também envolto em humor e romance e com um jeito mambembe de filmar, mas com maior poesia e profundidade.

Para ambientar o 1991 de Zero, o filme usa a técnica simples, mas eficiente, da trilha sonora, principalmente com a canção Tempo Perdido, da Legião Urbana, cantada pelos próprios atores. Não apenas no som, mas a direção de arte também opta por alternativas sem qualquer requinte na maior parte das cenas. O resultado acaba se tornando natural e agradável, dando um charme a mais à narrativa. Um dos exemplos é a roupa de astronauta usada por Wagner Moura. Não que ele precisasse dela para a viagem no tempo, mas ele queria estar bem para uma festa à fantasia.

Mesmo que distante das superproduções hollywoodianas de ficção científica, ou de qualquer filme que explora um universo fantástico com um abuso de efeitos especiais, O Homem do Futuro envolve e cativa o espectador. O cinema brasileiro, realizado por Claudio Torres, mostra então que não é preciso gastar milhões de reais para fazer o público acreditar naquilo que se pretende contar. Basta saber criar uma boa história e ter um jeitinho brasileiro para levá-la para as telas, e parece que Claudio não tem dificuldade com nenhum dos dois.


Assista ao trailer:

O Homem do Futuro (2011, Brasil)
Direção:
Cláudio Torres
Roteiro: Cláudio Torres
Elenco: Wagner Moura, Alinne Moraes e Gabriel Braga Nunes
102 Minutos

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes)

Se há mais de 40 anos, em 1968, o ator Charlton Heston nos mostrou que no futuro a Terra é dominada por símios inteligentes, enquanto aos humanos resta uma vida pré-histórica, sem sequer o dom da fala, agora James Franco vem nos dizer como foi o início deste trágico destino dos homens. Em Planeta dos Macacos: A Origem, do diretor Rupert Wyatt, são muitas as referências ao antigo filme, de Franklin J. Schaffner. No entanto, não há como traçar uma relação entre os cinco filmes originais e este, já que as contradições são muitas entre as obras.

Aqui, Franco vive o cientista Will Rodman, que faz um imenso esforço para descobrir a cura para o mal de alzheimer, doença que acomete o seu pai, Charles (John Lithgow). Testando os experimentos em macacos em uma grande corporação da indústria farmacêutica, ele logo descobre uma fórmula que não apenas regenera as células cerebrais, como pode despertar uma inteligência incomum em quem é submetido a ela. No entanto, um acidente no laboratório, que resulta na morte da cobaia, faz com que o projeto tenha que ser completamente repensado.

Enquanto tenta descobrir uma fórmula mais eficaz de combater a doença que atormenta seu pai, Will passa a ser babá de um pequeno chimpanzé, Cesar, filho de sua antiga cobaia. Logo o cientista percebe que há algo de especial no filhote, vindo dos genes modificados por seu experimento. Com uma inteligência incomum para macacos, e acima até da de alguns humanos, Cesar cresce aprendendo o modo de vida do homem, seja para o bem ou para o mal. Assim, quando ele é obrigado a conviver com outros de sua espécie, o que aprendeu serve para que se torne um líder e seu rancor contra os humanos é decisivo para o que fará com este poder.

Apesar do nome do filme supor que se trate da origem do Planeta dos Macacos, este filme foge das explicações dadas na série dos anos 70. Se lá Cesar era o filho de animais vindos do futuro, em uma fuga desesperada pelo espaço que desafia a física, desta vez são as experiências genéticas que determinam o início do fim da humanidade. Mesmo o mais recente filme realizado por Tim Burton não pode se encaixar neste, já que nele supõe que se trate de um outro lugar, fora da Terra. Sendo um filme a parte, o longa acaba gerando certa estranheza, ao narrar a origem de algo que não se sabe ao certo ainda o que é.

Não apenas o nome do chimpanzé líder da revolução símia é o mesmo dos filmes originais, mas há diversos momentos em que há referências a eles. Enquanto na obra de 1968, o personagem humano de Charlton Heston era chamado de Olhos Claros, pelos espertos macacos do futuro, aqui é a mãe de Cesar que recebe esse apelido dos cientistas. Mesmo com as homenagens, porém, Wyatt foi além ao propor um motivo especial para o domínio animal. Enquanto na série original os primatas apenas adquirem características humanas, desta vez eles ainda mantém as qualidades dos macacos, o que lhes dá grande vantagem sobre os homens.

Nas cenas em que os animais mostram todo seu potencial está a vantagem sobre os filmes originais. Se o roteiro se apresenta menos complexo do que antes, a tecnologia compensa isso com imagens muito mais realistas. Não vemos desta vez um ator vestido de chimpanzé como fica claro tanto na primeira série quanto no longa de 2001, mas é possível acompanhar um verdadeiro primata atuando ao lado de Franco, Lithgow ou Freida Pinto. Quando inicia a guerra entre as duas raças, esta tecnologia é decisiva para mostrar esta superioridade de Cesar e seus iguais.

Não é de esperar que O Planeta dos Macacos: A Origem fique apenas neste primeiro filme. Se nos anos 70 os produtores já foram bem-sucedidos em explorar a série, o mesmo deve se repetir agora. Mesmo com o original décadas distante, o sucesso de bilheteria desta nova explicação é grande no mercado norte-americano. Resta esperar para saber se, assim como distorceram a forma como ocorreu a dominação, vai haver um novo futuro para este planeta, diferente do encontrado pelo personagem de Heston.

Originalmente publicado no Portal R7.

 

Assista ao trailer:

Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011, EUA)
Direção:
Rupert Wyatt
Roteiro: Rick Jaffa
Elenco: James Franco, Andy Serkis e Freida Pinto
105 Minutos

Onde Está a Felicidade?

Quando em 2007 o casal Carlos Alberto Riccelli e Bruna Lombardi ressurgiu na mídia brasileira, trazendo o longa-metragem O Signo da Cidade, dirigido por ele e escrito e protagonizado por ela, houve certa desconfiança sobre a obra. O resultado, bastante superior ao esperado, mesmo não sendo alguma obra-prima, foi capaz de gerar boa vontade para uma nova produção dos dois, mas eis que chega Onde Está a Felicidade?, que desfaz este otimismo. Se o filme ainda repete alguns deslizes no roteiro de Bruna, não consegue também repetir uma boa história e momentos de emoção da obra anterior.

Com um casamento praticamente perfeito de 11 anos, a jornalista gastronômica Teodora (Bruna Lombardi) descobre por acaso que Nando (Bruno Garcia), seu marido, tem uma amante virtual. Não bastasse, junto com a desilusão amorosa Teo também se vê desempregada e sem expectativas de um novo trabalho. Ela então entra em uma crise existencial e tenta de toda forma se encontrar fora desta realidade de perfeição a que estava acostumada. Sem muito sucesso, nem mesmo ao apelar para fórmulas milagrosas, ela decide fazer uma viagem espiritual.

Ao lado da sobrinha de uma amiga, a confusa espanhola Milena (Marta Larralde), e do ex-produtor de seu programa de receitas, Zeca (Marcello Airoldi), Teo vai a Europa com a missão de fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Sem muito jeito para viagens como esta, os três percebem que não é nada fácil seguir o objetivo, e continuam tentando enganar a si mesmos, burlando as passagens e não dando a real importância à viagem. Mesmo com toda confusão, Teodora vai sentindo a falta de Nando, e aos poucos os dois, mesmo de longe, voltam a se entender.

Se a história de Onde Está a Felicidade? já não parece muito interessante, somado às atuações o desinteresse passa a ser total. Com um estilo exagerado, aparentemente tentando prestar uma frustrada homenagem ao do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, o filme acaba tendo um resultado risível, mesmo quando não se pretende uma comédia. A risada do público, porém, que chega mais pelos erros do que pelas piadas, não é aquela solta e alegre, mas a constrangida e quase sem graça, de quem não queria estar ali.

Nem mesmo as participações especiais, um grande mal do cinema brasileiro que se pretende de humor atualmente, consegue salvar algumas cenas. O casal de comediantes Marcelo Adnet e Dani Calabresa poderia ter se poupado de estar no filme. Se ele faz um personagem desinteressante e sem qualquer graça, ela tenta fazer uma mulher sensual, mostrando que o excesso de piadas sem graça matou um texto que já não tinha tanto apelo.

Para quem não viu O Signo da Cidade, Onde Está a Felicidade? é motivo o bastante para passar longe de um filme da parceria entre Bruna e Riccelli. Para quem assistiu ao filme anterior, este expões ainda mais os erros daquele, e mostra que ainda falta muito para que o casal de atores consiga um resultado digno em sua nova empreitada na sétima arte.

Assista ao trailer:

Onde Está a Felicidade? (2011, Brasil)
Direção:
Carlos Alberto Riccelli
Roteiro: Bruna Lombardi
Elenco: Bruna Lombardi, Bruno Garcia e Marcello Airoldi
110 Minutos

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