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Trabalho Sujo (Sunshine Cleaning)

Depois de viver uma princesa bastante fora dos padrões em Encantada, da Disney, a atriz Amy Adams volta a mostrar que contos de fadas da vida real dificilmente têm finais felizes no filme Trabalho Sujo, de 2008, que estreia no Brasil neste fim de ano. Não que Amy volte a viver uma princesa iconoclasta neste drama, mas sua personagem, Rose Lorkowski, começa o filme um pouco depois do que muitos filmes colocariam como o final ideal para a personagem. E isto não é nada bom.

Rose sempre foi desejada pelos homens e invejada pelas mulheres. Durante o colégio, ela era líder de torcida e namorava o esportista mais cobiçado do local. Porém, as coisas não deram muito certo para ela. Mac (Steve Zahn) não chegou a largá-la, apenas preferiu que ela fosse apenas sua amante, enquanto se casou com outra mulher. Com um filho pequeno e sem marido, Rose teve que se contentar com o emprego de faxineira. Enquanto limpa mansões que poderiam ser dela em seus antigos sonhos, ela tem um novo desejo, de conseguir se tornar corretora de imóveis.

Em uma família desestruturada, Rose parece ser a mais normal. O pai, Joe (Alan Arkin), é ainda mais sonhador, e vive de pequenas ideias que, mesmo que deem certo a princípio, só lhe trazem problemas futuros. Norah (Emily Blunt), a irmã, não faz qualquer questão de se manter no emprego e passa longe das responsabilidades. Mas, quando Mac diz a Rose que ela pode ganhar dinheiro montando uma empresa para limpar cenas de mortes violentas, ela não tem dúvidas e chama a caçula para ser sua sócia.

Mesmo com uma ideia interessante, Trabalho Sujo peca por um roteiro mal desenvolvido. O carisma dos personagens não consegue esconder suas fraquezas. Alan Arkin, por exemplo, em muitos momentos apenas repete a sua interpretação de Pequena Miss Sunshine – e não tenho dúvidas de que este não é um problema do ator. Enquanto isso, a Norah de Emily Blunt traz um drama pessoal que, por mais esforço que faça, o espectador não consegue embarcar com profundidade.

Mesmo a razão que levou Rose a ter sua vida transformada, indo de líder de torcida a faxineira amante de um policial casado, não é bem explicada na trama. Quem sabe o fato de ter ficado grávida. Mas isto fica apenas na imaginação do espectador. Talvez os problemas no texto possam ser por conta da inexperiência de Megan Holley, que assina seu primeiro roteiro. Mesmo assim, em muitos momentos no filme, o que parece é que foi mais consequência de um calendário apertado ou mesmo por pura preguiça de aprofundar as histórias.

Não que Trabalho Sujo seja um filme ruim, mas desagrada perceber que poderia ter sido bem melhor elaborado. Dois personagens menores, que poderiam ter um melhor espaço, chegam mesmo a ficar deslocados na trama, aparecendo timidamente em histórias paralelas de Rose e de Norah. Talvez, desta vez, Amy Adams também esteja mostrando que mesmo o trabalho nos cinemas está longe de ser um conto de fadas, e que precisa de um pouco mais do que apenas uma boa ideia.

Trabalho Sujo (Sunshine Cleaning, 2008, EUA)
Direção:
Christine Jeffs
Roteiro: Megan Holley
Elenco: Amy Adams, Emily Blunt e Alan Arkin
91 Minutos

Dúvida

Dentre os filmes bons que surgem, há uma pequena minoria que possui um diferencial. São aqueles que falam com o espectador, se contextualizando em sua história, independente de quando ele seja visto. São os filmes atemporais, na maioria sobre a natureza humana, que se tornam clássicos. Há também os bons filmes que acabam se perdendo no tempo, que falam com a época em que foram lançados, mas poucos anos depois ainda valem pela história ou pelas belas cenas, mas não dizem nada além disso. Dúvida, de John Patrick Shanley, poderia se enquadrar ao menos neste segundo caso, mas não consegue.

Em um colégio católico, em 1964, chega um novo aluno que demanda uma atenção especial dos superiores. Donald Miller é negro. O primeiro estudante negro aceito naquela instituição, comandada pela Irmã Aloysious, interpretada com louvor por Meryl Streep. Philip Seymour Hoffman é o Padre Flynn, que parece próximo demais do garoto. Os atos do religioso e do menino fazem com que a freira suspeite da existência de algum tipo de abuso sexual na relação, principalmente quando consegue informações pela personagem de Amy Adams, Irmã James, professora do menino.

A dúvida do título causa um forte embate psicológico entre Streep e Hoffman, dois atores que já provaram suas capacidades de segurar fortes personagens. A tensão que ronda o filme do início ao fim, com cada vez mais provas ou suposições do que pode ou não ter acontecido entre o padre e o aluno, prende a atenção e envolve o espectador, mostrando que Shanley mereceu quando ganhou o Pulitzer pela peça de 2004, que agora adapta para os cinemas, com roteiro e direção seus.

O dramaturgo, porém, pecou por deixar o tempo passar. Se lançado, assim como a peça, durante o governo Bush, um governo cheio de incertezas políticas e morais, o filme seria certamente um daqueles que representam uma época fazendo com que cada um possa refletir melhor sobre o tempo em que vivem. O erro foi ter lançado Dúvida apenas no final de 2008 – ou no começo de 2009, em países como o Brasil. Mesmo que a era das incertezas retorne, a eleição de Obama representa a era da renovação, da esperança, o que esvazia ideologicamente o filme neste momento.

Não que seja um mal filme, por ter sido lançado na época errada. Mesmo filmes datados, que dizem muito apenas quando são lançados, possuem certo valor com o passar do tempo, ainda que não tragam aquele impacto do momento com que dialoga. A desvantagem é que Dúvida não chegou a ter tempo de causar esse impacto. O filme veio tarde, chegou quando aquilo a que veio falar já tinha passado. Não precisava mais de novas reflexões. Mesmo com os problemas, com a crise, o tempo das dúvidas passou, tirando de Shanley, no cinema, a oportunidade que ele pôde ter no teatro.

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