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O Homem Que Engarrafava Nuvens

Mesmo mais de 50 anos após o auge de seu sucesso, muitos hoje continuam sabendo quem é o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, lembrado quase como uma figura mitológica com seu traje sertanejo, todo de couro, como um legítimo vaqueiro nordestino. Poucos, porém, são aqueles que ainda se recordam do Doutor do Baião. Maior parceiro de Gonzaga, o advogado Humberto Teixeira foi figura fundamental para que o ritmo se tornasse, na década de 40, sucesso absoluto no Brasil, e conhecido em todo o mundo. Seu prazer, no entanto, era apenas disseminar a cultura nordestina no resto do país, sem preocupação com fama ou qualquer outro tipo de mérito. Apenas hoje, três décadas após sua morte, o compositor tem sua vida exposta no documentário O Homem que Engarrafava Nuvens.

O título, retirado de uma auto-descrição de Teixeira, já revela que a poesia vai permear mais este trabalho de Lírio Ferreira, que já havia filmado Cartola – Música Para os Olhos e Baile Perfumado. A emoção deste novo filme, porém, se faz mais intensa, uma vez que a produção é da atriz Denise Dumont, filha de Humberto. Mesmo tendo vivido com o pai por boa parte de sua vida, Denise alega não o conhecer. Nordestino rígido, Teixeira sempre tratou a filha com frieza e distância, não aceitando sequer sua opção por se tornar atriz. Para conhecer realmente quem foi seu pai, ela recorreu ao cineasta pernambucano, e juntos recolheram depoimentos intensos sobre o compositor, advogado e deputado, que criou obras primas como Asa Branca, Assum Preto, entre outras, totalizando mais de 400 composições.

Como no documentário sobre o sambista carioca, Lírio começa pela morte. O cemitério como cenário, em uma visita de Denise ao pai, como que para avisá-lo que, mesmo contra a sua vontade, chegou a hora dela e do Brasil descobrir quem é ele, destoa do resto do filme. Pouco a pouco, a obra toma força e arrebata o coração da plateia, que não raro interage com as cenas como dificilmente acontece dentro de uma sala de cinema. São cenas de drama, humor, romance, suspense e, claro, muito musical, que desvendam esse grande personagem, mas que também desvendam muito da história de um país.

Consolidando a importância de Teixeira, Lírio e Denise trazem depoentes tão grandes quanto ele. Há Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia de um lado. Otto, Lenine, Lirinha e seu Cordel do Fogo Encantado de outro. Além de toques de Chico Buarque, Fagner, Belchior, Alceu Valença e tantos outros. Não só nos depoimentos, mas também em intervenções musicais. Um dos momentos mais tocantes é quando o mestre Sivuca, morto em 2006, em decorrência de um câncer, faz um dueto com Gal Costa, em uma imagem de êxtase dos dois músicos, que se entregam de corpo e alma para a canção. Não é sem motivos, já que o filme defende, não sem argumentos, que quase toda música criada no país após a década de 40, bebeu na fonte do Baião, principalmente movimentos como a Bossa Nova e a Tropicália. Lirinha ainda vai mais longe, revelando uma teoria de que até mesmo o Reggae foi criado sob influência de um disco da dupla Gonzaga-Teixeira.

Mas O Homem Que Engarrafava Nuvens não foi feito para saudar o grande compositor. Mesmo com diversas imagens que comprovam sua importância, como uma cena de filme italiano com uma apresentação de Baião, um show de uma cantora japonesa com músicas de Teixeira no repertório, ou mesmo o depoimento do americano David Byrne, do Talking Heads. Mesmo com imagens e sons de arquivo de Humberto, Luiz Gonzaga e todo o mundo conquistado pelos dois através da música, o filme é sobre uma filha que deseja encontrar seu pai. Sob as lentes de Walter Carvalho e comando de Lírio Ferreira, esta busca se torna ainda mais poética e sincera, e é quase indiscreta a presença do público quando ela questiona sua mãe sobre sua difícil relação com o ex-marido. Enquanto Denise vai encontrando o que procura, o público vai descobrindo Humberto Teixeira, a ponto de, mesmo sem o conhecer, sentir pelo compositor uma saudade amarga Qui Nem Jiló ao final da projeção.

O Homem Que Engarrafava Nuvens (2009, Brasil)
Direção:
Lírio Ferreira.
100 Minutos

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Cidadão Boilesen

Quando foi lançado no Brasil o filme Coco Antes de Chanel, biografia de uma das mais influentes estilistas do mundo, muito se falou sobre a omissão de seu envolvimento com o nazismo. Da mesma forma, se questionou o fato de, após o fim da guerra, alemães, franceses e gente de todo o mundo se tornasse, de repente, opositor ao sistema. Assim como na Europa, no Brasil aconteceu caso parecido. No início da década de 60, muitos empresários e instituições pediam o Golpe de Estado ao governo João Goulart e, mesmo durante a ditadura militar, foram financiadores dos golpistas. Com o retorno da democracia, no entanto, muitos deles comemoraram com o outro lado, sem sujar seus nomes, ou de suas empresas com a ligação anterior.

Mesmo mais de duas décadas após o fim do regime, apenas os militares são responsabilizados por atos contra a liberdade. Um passo para abrir a discussão é o lançamento do documentário de Chaim Litewski, Cidadão Boilesen. O filme conta a controversa ligação entre o dinamarquês Henning Boilesen, presidente da Ultragaz, e os militares da Operação Bandeirante, responsável pelo temido DOI-CODI. Membro ativo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a FIESP, o empresário não apenas financiava a tortura, como convencia outros industriários a fazer o mesmo. Além disso, Boilesen tinha a mórbida mania de estar presente quando revolucionários eram torturados, o que resultou em seu assassinato, em 1971.

Mais do que fazer um filme que demonize o personagem, ou mesmo apenas uma denúncia aos civis que financiaram a Oban, Chaim mergulhou durante dezesseis anos em um minucioso trabalho de pesquisa, que deu voz a todos os lados da história. Tomando o distanciamento necessário da história, o cineasta recolheu depoimentos desde funcionários da escola em que o personagem estudou na Europa ao filho de Boilesen, do coronel Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI, ao líder da ação que resultou na morte do empresário, Carlos Eugênio da Paz, sempre dando espaço para cada lado expor suas verdades, e quase sempre ouvindo o mesmo discurso, de que não foram apenas os militares os responsáveis pelo terror da ditadura, mas muitos civis.

Abusando de recursos audiovisuais, como músicas e filmes que retratam a época, e com a ajuda do produtor e montador Pedro Asbeg, Chaim criou um filme leve, didático e bastante emocionante, com uma edição lúdica e ágil que prende a atenção do espectador do início ao fim. A estrutura narrativa do filme já fascina o espectador. Aliando à riqueza de detalhes conquistada pelos anos de pesquisa, o filme alcança lugar de destaque entre os melhores documentários brasileiros lançados nos últimos anos, o que lhe rendeu, inclusive, o prêmio de melhor filme na edição de 2009 do festival É Tudo Verdade.

Seja pela estrutura, pelo apurado trabalho de pesquisa, ou pela força da história, o filme já merece ser visto. Porém, mais do que uma obra cinematográfica, Cidadão Boilesen é o instrumento para a mudança no pensamento do brasileiro. Em entrevistas, Chaim deixa clara a sua intenção de usar o filme para questionar tantos Boilesens que ainda estão vivos hoje, e que posam de defensores da democracia e da liberdade. Mais do que investigar o lado negro do empresário de origem dinamarquesa, o cineasta quer, com este polêmico filme e com os debates que ele pode suscitar, expor o lado negro da sociedade civil brasileira. Porém, este já não é um trabalho tão simples, já que a mesma elite que lutou às escondidas para apoiar a ditadura, ainda continua na surdina impedindo que este envolvimento venha a tona.

Cidadão Boilesen (2009, Brasil)
Direção:
Chaim Litewski
Roteiro: Chaim Litewski
93 Minutos

É Fácil Fazer Uma Canção

Documentário sobre a cena do rock underground da Zona Oeste do Rio de Janeiro em 2002. Realizado a partir do Rato no Rio, um festival mensal realizado em Bangu. Com a participação do organizador do Rato no Rio, Marcelinho, e das bandas Filhotes!, Sexo & Blood Mary e Ataque Periférico.



Aceito reclamações, elogios, críticas, sugestões, convites para novas produções e o que quer que você tenha a falar a respeito…

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