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Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger)

Aos 75 anos e mais de 40 filmes no currículo, Woody Allen não precisa provar a ninguém sobre sua capacidade de fazer um bom cinema, mesmo quando o acusam de repetitivo. É o que acontece novamente em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Realizado logo após Tudo Pode Dar Certo, um dos maiores trabalhos do cineasta novaiorquino, o longa retoma temas já conhecidos na filmografia de Allen, e já é mal visto acusado ser mais do mesmo.

Desta vez, uma de suas ousadias, que também pode não agradar o público, foi ter escolhido como a mocinha de seu filme a atriz Gemma Jones, que já está próxima dos 70 anos. Ela vive Helena, uma mulher recém abandonada pelo marido Alfie (Anthony Hopkins), que prefere aproveitar melhor a juventude de sua terceira idade ao lado de outras mulheres. Se em Interiores, de 1978, a esposa largada perde a razão de viver, desta vez a personagem tenta de toda forma descobrir este sentido da vida longe do ex.

E então que surge um dos temas mais recorrentes dentro do trabalho de Woody, a ilusão. Helena decide trocar o racional dos tratamentos psiquiátricos pelas sessões constantes de terapia com uma cartomante, que lhe diz o que toda mulher solitária deseja ouvir: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Enquanto Alfie fica noivo de uma atriz sensual com metade da sua idade, mas pouco caráter, Helena se sente feliz em ter a esperança de ainda ter a chance de viver um grande amor.

Assim como a Cecilia de A Rosa Púrpura do Cairo, ela vive intensamente sua ilusão enquanto todos à sua volta se desesperam com a realidade. Alfie percebe que pode ter cometido um erro, enquanto a filha do casal, Sally (Naomi Watts), não suporta o peso de ter de sustentar o marido, o fracassado escritor Roy (Josh Brolin), que passa os dias em casa para escrever seu novo livro, mas prefere ficar espionando a bela vizinha (Freida Pinto) pela janela. Mesmo ele sendo escritor, no entanto, prefere se apoiar na realidade em vez de acreditar na ilusão que traz felicidade à sogra.

E a realidade, cruel a todos, parece não abalar Helena. Sempre apoiada pela cartomante, ela não teme seu futuro, já que acredita conhecer parte dele. Mesmo tudo indicando que a mulher que a ajuda é uma farsante, ela prefere se agarrar àquela ponta de esperança que lhe é dada a cada sessão. Ela quer apenas seguir em frente, usando aquela sua ilusão como uma forma de aguentar toda a realidade a sua volta, assim como faz Woody Allen, com sua invejável marca de um filme por ano.

Um dos que mais defendem, a partir de suas obras, o conceito de cinema de autor, o novaiorquino não precisa criar enredos mirabolantes e originais para chegar a um filme de qualidade. Se Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos não está entre os melhores longas do diretor, isto não quer dizer que seja descartável. Até porque, um Woody Allen menor ainda é sempre um bom filme.

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010, EUA)
Direção:
Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Gemma Jones, Naomi Watts e Anthony Hopkins
98 Minutos

Milk – A Voz da Liberdade

Há certos cineastas que eu realmente não consigo entender todo um endeusamento em cima deles. São diretores bons, reconheço, mas que me parecem superestimados pelos motivos errados. É o caso por exemplo de David Lynch, que tem ótimos filmes, mas que ultimamente tem sido cultuado por bobagens sem sentido – pelo menos ao meu ver. Outro caso é o de Gus Van Sant, que ficou famoso principalmente por um equivocado Elefante. Voltando a um cinema mais tradicional, o diretor aparece agora com Milk – A Voz da Liberdade.

Conhecido defensor de minorias, Harvey Milk foi o primeiro político estadunidense eleito apesar de ser homossexual assumido, ainda nos anos 70. Pouco depois, no entanto, é assassinado por um adversário. Quem dá corpo ao personagem é Sean Penn, que também entra com a alma no filme e muitas vezes se esquece de quem é que está na tela. Macho daqueles que bate na esposa, como já foi divulgado, o ator se entrega ao papel chegando quase a ultrapassar a barreira para um esteriótipo. Mesmo concorrendo com Mickey ‘Volta por Cima’ Rourke, Penn tem toda chance de levar o Oscar para casa.

Ao contrário dos últimos trabalhos de Van Sant, Milk até experimenta, mas não deixa que isto seja maior que a própria história do filme. A maior dessas ousadias, na verdade, nem é tão inovadora. Se tratando de um fato real, o diretor abusa de imagens de arquivo da época e mesmo de fatos retratados na história. Porém, neste caso, a fotografia granulada e opaca consegue deixar estas cenas documentais mais próximas do filme, sem ser apenas meras ilustrações e fazendo parte da narrativa.

A principal vantagem do filme sobre os últimos é que ele conta algo, seu roteiro é concreto, não apenas mostrando fatos. Além disso, também ao contrário deles, Milk não tenta justificar os atos de seus personagens – todos reais – por uma homossexualidade reprimida, como já havia acontecido em Elefante e em Últimos Dias, sob o pretexto de não assumir a responsabilidade de contar a vida dos assassinos de Columbine ou de Kurt Cobain.

Acredito que muitos dos fãs de Gus Van Sant vão sair decepcionados da sala de cinema, talvez até acusando seu ídolo de ter se vendido a um tal sistema careta. Não vejo, no entanto, qualquer traço careta em Milk, que defende não apenas os homossexuais, como qualquer minoria, e defende a “saída do armário” para que o mundo perceba que não há como tentar fugir de um problema que está apenas na cabeça de muitos. A união de um bom diretor, um grande ator e um roteiro coeso, permite ao mundo tentar entender melhor as razões de Harvey Milk.

Milk – A Voz da Liberdade (Milk, 2008, EUA)
Direção:
Gus Van Sant
Roteiro: Dustin Lance Black
Elenco: Sean Penn, Emile Hirsch, James Franco.
128 Minutos

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