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Ilha do Medo (Shutter Island)

Não são os animais, grandes bandidos, extraterrestres. Não são monstros, insetos, assassinos seriais. Nem mesmo são os fantasmas ou os grandes fenômenos da natureza. Na verdade, o maior medo do ser humano, em toda a história, é o de perder o controle sobre si mesmo. Sendo assim, mesmo sem grandes sustos, como poderiam prever alguns pelo trailer, o novo filme de Martin Scorsese, Ilha do Medo pode ser sim considerado um thriller de terror. Mais uma vez em parceria com Leonardo DiCaprio, o diretor adapta para as telas a obra Shutter Island, de Dennis Lehane, o mesmo que também escreveu o livro que deu origem a Sobre Meninos e Lobos.

DiCaprio aqui é o agente da Polícia Federal Teddy Daniels, que recebe como sua nova missão investigar o desaparecimento de uma perigosa paciente de um manicômio judicial de segurança máxima. Dentro de uma ilha, o local tem apenas uma saída. Uma vez lá dentro, ele e seu parceiro Chuck, interpretado por Mark Ruffalo, percebem que há muito por trás deste estranho sumiço. Lá, eles não tem tantos poderes, e precisam se submeter às ordens dos guardas locais, que aparentam não querer colaborar. Da mesma forma, médicos, enfermeiros e até mesmo pacientes sempre parecem estar escondendo algo da dupla.

Atormentado por visões do passado, Teddy sabe que ali também pode encontrar o homem que matou sua mulher, de quem não se sente totalmente vingado. À medida em que os agentes investigam, notam que é cada vez mais remota a chance de eles conseguirem se livrar daquele lugar. O ambiente da ilha, as pessoas, os sonhos que tem ali, tudo parece assombrar o policial, até então tido como uma lenda viva na profissão. Quando, misteriosamente, a paciente reaparece sem qualquer marca ou lembrança do que realmente aconteceu, Teddy tem duas opções: ou esquece aquele caso e vai embora da ilha, ou investiga até o fim e fica para sempre preso ali.

Autor de dezenas de filmes, entre ficções e documentários, Scorsese já provou que é um dos maiores nomes do cinema mundial, tendo inclusive dirigido duas obras fundamentais para quem quer entender a sétima arte, os documentários em que conta as histórias dos cinemas americano e italiano (A Personal Journey e Il Mio Viaggio in Italia). Assim, ele parece brincar com a câmera, fazendo referências claras a grandes nomes do cinema, principalmente Alfred Hitchcock, presente em quase todo Ilha do Medo. O cineasta ainda abusa de planos e trilha sonora que geram ainda mais tensão, enfatizando o clima de suspense da história, ajudado ainda pela interpretação fantástica de grande parte do elenco.

Já comparado por alguns a O Iluminado, de Stanley Kubrick, ou a Um Corpo que Cai, do mestre do suspense Hitchcock, a obra pode estar aquém destes grandes clássicos, mas é certo que é um dos maiores filmes do gênero realizados por Hollywood nos últimos anos. E um dos maiores de Scorsese. A tensão psicológica pela qual o personagem passa do primeiro ao último minuto de filme, tem um ritmo intenso que prende e envolve o espectador, que acaba sofrendo junto os medos de Teddy de perder o controle da mente. Afinal, como diz uma das personagens, “quando te consideram louco, qualquer coisa que você faça apenas confirma a afirmação”. Porque, no fundo, é isto o que somos: humanos, incertos, inconstantes.

Ilha do Medo (Shutter Island, 2010, EUA)
Direção: Martin Scorsese.
Roteiro: Laeta Kalogridis.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo e Michelle Williams.
138 Minutos

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Foi Apenas um Sonho

Dez anos se passaram e Leonardo DiCaprio e Kate Winslet estão de volta aos cinemas juntos, como o casal de Foi Apenas um Sonho. Durante esse período, Titanic ou seu diretor James Cameron se perderam no tempo, ficaram para trás e são pouco citados atualmente, em compensação DiCaprio trabalhou em obras de grande porte e hoje é tido, ainda com ressalva, como um dos grandes atores do cinema. Winslet, por sua vez, não deixa ressalva alguma e se apresenta como uma nova Meryl Streep, colecionando prêmios e indicações.

Os atores são primordiais para a trama contada por Sam Mendes, marido de Winslet. O diretor de Beleza Americana retoma como um iconoclasta, tentando demolir o “American Way of Life”. Frank e April eram jovens sonhadores quando se conheceram. Com o casamento, os filhos, a adequação a uma vida normal, os jovens revolucionários da Revolutionary Road, acabaram entrando na rotina. E, como é comum nos casais, a paixão esfriou, dando lugar às discussões e à indiferença. April, no entanto, tem a solução para salvar o casamento. Que eles se mudem para Paris, tentar uma vida nova.

A questão não é Paris, ou qualquer outra cidade do mundo. Eles só precisam fugir da vida que levam na América dos anos 50, e que se continua levando hoje em tantos lugares. Em certo momento, Frank confessa que está fugindo do desesperado vazio da vida. O casal está em uma conversa com John, personagem que rendeu uma indicação ao Oscar para Michael Shannon. Filho de uma vizinha, o homem acaba de sair de um sanatório e não tem o mínimo pudor em dizer o que pensa. Sua capacidade de ver a vida além do medíocre, lhe trouxe os problemas emocionais, que se pensava na época só poderem ser curados com choques elétricos.

E é nesse momento em que Sam Mendes dá seu mais duro golpe na sociedade. John, um louco, um desajustado, é o único a perceber que é preciso sim fugir daquele vazio desesperador. E ele sabe que não é qualquer um que consegue cumprir uma missão tão dura, que é preciso muita coragem para isso. A sociedade não descartou John por ele ser um insano, mas por ele ter esse despreendimento de apontar o dedo na cara de cada um e mostrar suas fraquezas. E é muito difícil para qualquer ser humano ter seu ponto fraco exposto, mesmo que este seja coletivo.

Foi Apenas um Sonho ajuda Sam Mendes a voltar a dar um tapa na cara do americano médio ou daquele que tenta seguí-lo com empenho em busca de sua vida perfeita, com um carro na garagem de uma casa grande, com um grande jardim para plantar e dar espaço para as crianças brincarem. Frank apenas queria não seguir o caminho de seu pai, mas acabou herdando o emprego dele, e uma vida semelhante. A possibilidade de mudança aparece para todos, mas quem tem coragem de ver o desespero dentro do vazio da vida?

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