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Os Mercenários (The Expendables)

Uma reunião entre velhos amigos com muitos interesses em comum. Esta é a melhor definição de Os Mercenários, filme escrito, dirigido e protagonizado pelo sessentão Sylvester Stallone. Enquanto uns chamam sua turma para um chope no final da tarde ou talvez para um jogo de pôquer madrugada adentro, o eterno Rambo prefere chamar amigos como Jet Li, Jason Statham, Dolph Lundgren e Eric Roberts para dar tiros e explodir alguns prédios.

Até mesmo Mickey Rourke, reconhecido a pouco pela ação descerebrada, está presente na turma, como o mercenário aposentado que prefere passar seus dias com a arte da tatuagem ou na companhia de alguma bela namorada que sequer lembra o nome. Mas é quando surgem os dois maiores ícones dos filmes de ação que fica clara a intenção de Sly. Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger mal conseguem segurar as risadas em cena, mostrando que o filme não é mesmo para ser levado a sério.

Não são apenas os atores que se divertem com a cena, mas também o público que percebe que Os Mercenários não tem qualquer pretensão maior do que a pura e simples diversão. Stallone, desta vez, não busca mais um Oscar como conseguiu surpreendentemente com Rocky. Mesmo Rambo, que compartilha tiros, explosões e testosterona em excesso, pode ser complexo perto de sua nova obra.

Até porque, qualquer motivo é válido para uma reunião de velhos amigos. Por que não salvar um país de terceiro mundo controlado por um ditador que é marionete de um figurão norte-americano? Ainda mais se houver uma bela mulher em risco. Gisele Itié, no caso, que conquista o coração do durão Barney Ross, vivido por Stallone. O personagem, líder de um grupo de justiceiros, recebe uma proposta milionária para matar o ditador e livrar seu povo. Mas, é claro, o coração que será responsável por aceitar o trabalho, mesmo sabendo que pode ser suicídio.

Clichê? Sim, este filme já foi feito tantas outras vezes. Provavelmente, muitas delas até com mais competência do que em Os Mercenários. Mas nunca ninguém foi capaz de reunir em um mesmo filme de ação tantos heróis como neste. E apenas Stallone seria mesmo capaz de juntar tantos astros. Dos grandes, talvez apenas Jean-Claude Van Damme fique de fora, já que o ator belga já tinha se divertido sozinho em JCVD, de 2008.

Famosa nas televisões brasileiras, a mexicana Gisele Itié não chega a ter uma interpretação memorável, até mesmo porque um filme de ação como este não chega a permitir isso. Mas a atriz não se compromete e faz exatamente aquilo que se espera de uma mocinha de um longa do nível de Os Mercenários.

A polêmica pela forma deselegante como Stallone agradeceu por ter filmado em terras brasileiras talvez gere um mal-estar maior depois da estreia, mas não deve comprometer o resultado. O público que se espera para a obra não está incomodado com isso. Os Mercenários é apenas um monte de explosões como desculpa para ir ao cinema. Quem sabe em uma reunião de velhos amigos que compartilham do interesse de ver um filme de ação.

Originalmente publicado no Portal Terra.

Os Mercenários (The Expendables, 2010, EUA)
Direção: Sylvester Stallone.
Roteiro: Sylvester Stallone e Dave Callaham.
Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham e Jet Li.
103 Min

O Lutador

Famoso durante os anos 80, Phillip Andre passou a ter uma série de problemas a partir dos anos 90. Além dos maus-tratos à sua própria família, sua carreira na luta livre consumiu seu corpo. Nos ringues, conquistava marcas e cicatrizes. Fora deles, o uso de drogas e esteróides para melhorar seu desempenho. Desta forma seu declínio foi visível tanto fisicamente quanto profissionalmente, até que se desse conta disso e, em uma tentativa de retomar sua vida social, conseguiu uma excêntrica volta por cima. Apesar de esta não ser a história do filme O Lutador, de Darren Aronofsky, as semelhanças são grandes.

Assim como Phillip, que prefere atender por Mickey Rourke, o personagem do filme também não gosta de ser chamado pelo seu nome de batismo, Robin Ramsinski, mas de Randy Robinson. E é a questão da identidade que carrega todo o filme que rendeu o prêmio de melhor ator em Cannes para Rourke. Da mesma forma que muito é falso na vida de um ator, que precisa lidar com sentimentos que não são próprios, os lutadores de luta livre também fazem suas encenações e cultuam um corpo artificial, que empolgue mais o público.

Randy, que era famoso nos anos 80, ainda é um nome conhecido no mundo da luta, mas sua vida não passa de uma grande ilusão. Morando em um trailer, ele mal tem dinheiro para se sustentar, gastando quase tudo com as drogas ou roupas de luta e tinta para os cabelos. Após abandonar sua filha pequena, a única pessoa com quem ele tem uma relação mais próxima é com Cassidy, nome também falso da stripper vivida por Marisa Tomei. A amizade, porém, é restrita ao clube e mediante pagamento. Apenas quando percebe que está próximo da morte que ele tenta voltar a ser um pouco mais Robin Ramsinski.

As semelhanças entre as duas histórias podem facilitar a atuação de Mickey, que segundo alguns dizem apenas interpretou a si mesmo. Porém, é difícil assumir erros, ainda mais alguns tão antigos, diante de uma câmera para todo o mundo. E foi enfrentando suas dificuldades e assumindo o desafio de interpretar a si próprio que Rourke fez notar sua capacidade cênica. A forma como o bruto tenta agir para mostrar que também ama impacta no peito do espectador. Seus medos, sua insegurança em dizer para Cassidy ou para sua filha que ele teme a solidão parecem doer mais do que qualquer golpe.

Nos ringues, Randy aguenta qualquer coisa. Em uma das lutas, ele sai com o corpo todo ferido, sangrando por toda parte, com cacos de vidro e grampos espalhados em si, mas com uma serenidade de que aquela dor vai passar, que aquelas feridas podem deixar alguma cicatriz, mas que vão deixar de incomodar em pouco tempo. Quando ele se assume como Robin, sabe que se se machucar, não há curativo que resolva. Sabe que qualquer cicatriz, por menor que seja, machuca por toda a vida. Assim como deveria saber o ator de 9 e ½ Semanas de Amor quando optou largar a fama pelos ringues.

O Lutador (The Wrestler, 2008, EUA/França)
Direção:
Darren Aronofski
Roteiro: Robert D. Siegel
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
115 Minutos

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