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Oscar 2011 – Melhor Filme Estrangeiro

Uma das categorias mais difíceis de se prever no Oscar é a de Melhor Filme Estrangeiro. Pouco se sabe sobre quem foram os votantes, já que todos podem participar, mas apenas se tiver visto todos os indicados. O dinamarquês Em Um Mundo Melhor leva vantagem, por já ter levado o prêmio no Globo de Ouro. Biutiful, inscrito pelo México, e dirigido pelo já conhecido Alejandro González Iñárritu, também está entre os favoritos, principalmente depois do lobby realizado pela atriz Julia Roberts pelo filme.

Sem dúvida o grego Dentes Caninos é o que tem menos chances de conquistar a estatueta. O filme, que foge bastante dos padrões da Academia, já pode considerar a própria indicação como um grande prêmio. Além desses, o argelino Fora da Lei e o canadense Incêndios também tem chances de levar o prêmio para seus países, mas as expectativas são menores.

Veja a opinião do VerdadeAlternativa sobre os candidatos a melhor filme estrangeiro no Oscar 2011:

5. Dentes Caninos, (Kynodontas, 2009, Grécia)
Direção: Giorgos Lanthimos
Elenco: Christos Stergioglou, Michele Valley e Aggeliki Papoulia
Estranho que um filme como este tenha sido indicado ao acadêmico Oscar, até por ser uma produção de 2009. A ideia é boa, apesar de já ter sido usada por M. Night Shyamalan em seu A Vila, mas mal realizada. O filme conta sobre uma família em que o pai usa artifícios para isolar os filhos do resto do mundo. Poderia ser bom – e tem boas cenas – mas é de um terrível mal gosto. Não vale a pena ver.

4. Em Um Mundo Melhor, (Hævnen, 2010, Dinamarca/Suécia)
Direção: Susanne Bier
Elenco: Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm e Ulrich Thomsen
Ganhador do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, este tem chance de levar o prêmio aqui também, até por ter uma trama narrada sob o ponto de vista de crianças, o que historicamente agrada no Oscar. O filme tenta mostrar como bem e mal estão presentes em todos. Porém, falta profundidade no roteiro, que por diversas vezes tenta apelar para o clichê e o piegas.

3. Fora da Lei, (Hors-la-loi, 2010, França/Argélia)
Direção: Rachid Bouchareb
Elenco: Jamel Debbouze, Roschdy Zem e Sami Bouajila
Rachid Bouchareb é, talvez, o melhor cineasta dentre os cinco indicados em 2011 na categoria. Seus filmes, em geral, tratam de uma forma sincera e bem realizada as dificuldades dos povos do norte da África em contato com os franceses. Desta vez, ele conta sobre três irmãos que, cada um ao seu modo, tiveram sucesso na Europa. Sempre à margem da lei.

2. Incêndios, (Incendies, 2010, Canadá/França)
Direção: Denis Villeneuve
Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette
Belas imagens, trilha sonora bem colocada e um bom roteiro fazem deste filme canadense uma das melhores e mais fortes produções do ano. Contando sobre dois irmãos gêmeos têm duas grandes revelações após a morte da mãe, o filme emociona do início ao fim. O final, no entanto, é uma bomba que faz o espectador esquecer de alguns deslizes do decorrer da projeção e apenas sentir.

1. Biutiful, (2010, México/Espanha)
Direção: Alejandro González Iñárritu
Elenco: Javier Bardem, Maricel Álvarez e Hanaa Bouchaib
Não haveria nome melhor para o filme, que é conduzido brilhantemente por Javier Bardem, em um de seus melhores papéis. Sem as tramas paralelas, comuns nas produções do diretor Alejandro González Iñárritu, este conta a história de um homem no limiar da marginalidade, que tem poucos dias para acertar sua vida antes de ser vencido por um câncer. Sem dúvida, o melhor filme do ano.

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Oscar 2011 – Melhor Filme

Mesmo que a grande maioria das apostas indiquem O Discurso do Rei como o favorito aos prêmios de melhor filme e diretor no Oscar de 2011, o longa está longe de ser o melhor. O vencedor do Globo de Ouro, A Rede Social, tem um resultado bastante superior ao seu concorrente, mas é dirigido por David Fincher, que não tem a simpatia dos membros da Academia.

A disputa deve mesmo ficar entre os dois longas, e é muito difícil que algum outro venha a roubar o papel de destaque na noite de 27 de fevereiro de 2011. Mesmo assim, muitos ainda apostam as suas fichas em Bravura Indômita, o maior sucesso comercial dos irmãos Coen, ou em Cisne Negro, o pesado filme do controverso Darren Aronofsky. Os outros seis são pouco comentados e suas chances são quase nulas.

Veja a opinião do VerdadeAlternativa sobre os candidatos a melhor filme no Oscar 2011:

10. Inverno da Alma, (Winter’s Bone, 2010, EUA)
Direção: Debra Granik
Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes e Garret Dillahunt
Apesar de boas atuações, uma boa história e belas imagens, o gélido filme não funciona. Pelo menos não para os quentes brasileiros. Nele, a jovem Ree tem que encontrar o seu pai a tempo, antes que ela perca sua casa, onde vive com a mãe inválida e os irmãos, e que foi dada como garantia da fiança dele, acusado de envolvimento no tráfico de drogas. Não envolve.

9. O Discurso do Rei, (The King’s Speech, 2010, EUA/Inglaterra)
Direção: Tom Hooper
Elenco: Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter
Mesmo cotado por muitos como o favorito nas categorias filme, direção e ator, o longa tem um grande defeito: como todo inglês, é muito certinho. Tudo funciona bem, mas não empolga. É o tipo de filme que não há qualquer motivo para não gostar dele, mas que é facilmente esquecido. O que já é o suficiente para que seja, injustamente, o grande campeão da noite.

8. Minhas Mães e Meu Pai, (The Kids Are All Right, 2010, EUA)
Direção: Lisa Cholodenko
Elenco: Annette Bening, Julianne Moore e Mark Ruffalo
Um dos filmes mais simpáticos do ano erra feio no final, que acaba pecando por um preconceito às avessas, destruindo a boa imagem do longa. Aqui, dois irmãos, criados por um casal de lésbicas, decidem procurar o pai biológico, causando diversos problemas na família. Destaque para o clima leve, que faz com que se obtenha grandes atuações, além da forma natural como a trama é contada.

7. Toy Story 3, (2010, EUA)
Direção: Lee Unkrich
Até mesmo Quentin Tarantino considerou este o melhor filme do ano, mas seria um grande exagero premiá-lo com o Oscar principal. Melhor filme da trilogia, a animação acerta em puxar pela memória emotiva de seus espectadores que, assim, se sensibilizam ainda mais com a história dos brinquedos. O longa, no entanto, é inferior a títulos do estúdio, como Wall-E, por exemplo.

6. Bravura Indômita, (True Grit, 2010, EUA)
Direção: Ethan e Joel Coen
Elenco: Jeff Bridges, Matt Damon e Hailee Steinfeld
Talvez este filme pudesse ganhar um lugar mais honroso na lista se não fosse comparado com o original de 1969. Superior em muitos quesitos, o longa estrelado por John Wayne desaponta os fãs dos irmãos Coen. Mesmo assim, os resquícios de humor dos diretores e as grandes atuações de Jeff Bridges e Hailee Steinfeld fazem deste um grande entretenimento.

5. A Origem, (Inception, 2010, EUA/Inglaterra)
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt e Ellen Page
Christopher Nolan e seu filme precisaram de muito fôlego para chegarem aos dez mais mesmo tendo estreado mais de seis meses antes do Oscar. Com o seu universo dos sonhos dentro dos sonhos, mais uma vez o diretor brinca com a mente de seus personagens e de seus espectadores em uma espetacular e bem contada história.

4. O Vencedor, (The Fighter, 2010, EUA)
Direção: David O. Russell
Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale e Amy Adams
Tinha tudo para que ser mais um filme de superação, contando a vida real de um lutador que deu a volta por cima, mas um detalhe fez com que este se tornasse um dos melhores filmes do ano: a brilhante atuação de Christian Bale, que chega a assustar om o seu personagem ao mesmo tempo doentio e realista.

3. A Rede Social, (The Social Network, 2010, EUA)
Direção: David Fincher
Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield e Justin Timberlake
Apenas David Fincher, com os seus roteiros e edições frenéticos – como já vimos em filmes como Seven ou Clube da Luta -, para transformar a vida de um sujeito ranzinza e sem graça em um dos melhores filmes do ano. A história do site Facebook não poderia ser contada por outra pessoa.

2. 127 Horas, (127 Hours, 2010, EUA/Inglaterra)
Direção: Danny Boyle
Elenco: James Franco, Amber Tamblyn e Kate Mara
De tão surreal que é sua história, talvez o filme não funcionasse se não fosse uma simples adaptação de um caso verídico. Como se trata da realidade transposta para a tela, o longa se torna um dos melhores e mais impactantes dos últimos tempos. A cena mais comentada, em que o personagem decepa seu próprio braço, é forte até mesmo comparada com os mais sanguinolentos filmes de terror, mas tudo ali é necessário.

1. Cisne Negro, (Black Swan, 2010, EUA)
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis e Vincent Cassel
Apesar dos exageros do megalômano diretor Darren Aronofsky, a história da bailarina que precisa enfrentar seus próprios medos e limitações para conquistar um importante papel consegue superar qualquer um dos outros indicados deste ano. A força psicológica do roteiro, aliada à assombrosa atuação de Natalie Portman, coloca o filme em um patamar que nenhum outro americano consegue alcançar.

Incêndios (Incendies)

A vida de uma pessoa não começa com o seu nascimento, assim como também não termina com a sua morte. Pelo menos é o que mostra o candidato canadense ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Incêndios, que chega aos cinemas brasileiros no mesmo fim de semana em que acontece a premiação. Quarto longa do diretor Denis Villeneuve, o filme parte de uma premissa simples para entrar em uma dura busca pela origem e, consequentemente, pela identidade de dois irmãos após a morte de sua mãe, remexendo em feridas que eles sequer imaginavam que um dia haviam sido abertas.

Depois da misteriosa morte de Nawal, seus filhos, os gêmeos Simon e Jeanne, acompanham a leitura de seu testamento. No texto, a mãe revela duas grandes surpresas, ao mesmo tempo em que lhes dá duas missões. Eles terão que encontrar o irmão, que nem sabiam que existia, além do próprio pai, que achavam estar morto, e entregar a cada um deles uma carta. Apenas quando realizarem esses pedidos, ela poderá descansar em paz e em seu túmulo poderá ser grafado o seu nome. Para realizar, no entanto, ela não deixa qualquer pista, cabendo aos filhos descobrir de onde irão partir para fazer suas descobertas.

Enquanto Simon acha que esta é apenas mais uma excentricidade da mãe, e não dá qualquer atenção ao que está no testamento, Jeanne decide aceitar o desafio. Assim, ela sai do Canadá e vai para o Oriente Médio, de onde sua mãe veio, em busca de mais informações sobre ela e seu pai. À medida em que vai se encontrando com o passado de Nawal, ela vai percebendo que muitos segredos rondavam a vida desta mulher, que ela acreditava conhecer tão bem. Quanto mais fundo vai em sua investigação, mais descobre os sacrifícios que a mãe fez, e como isto afetou a vida dos dois irmãos.

A busca pela origem acaba se tornando uma busca pela própria identidade, tanto de Jeanne quanto de seu irmão, que se une após perceber o universo de novidades estão surgindo destas missões. Porém, é senso comum que remexer o passado traz novas dores, ao mesmo tempo que também pode livrar de velhos problemas. É possível fazer o paralelo com histórias de nações, em que enquanto alguns preferem esquecer do que aconteceu e tocar a vida com a dúvida, como Simon, outros tentam descobrir as raízes de seus problemas, suportando as consequências em prol de um futuro mais claro, como faz Jeanne.

O início do filme já mostra a força das imagens do cineasta canadense, com uma cena que traz forte carga sentimental ao unir belos enquadramentos, boas atuações e uma música de impacto, mesmo sem qualquer informação sobre o que está acontecendo. Não apenas o roteiro – adaptado de uma peça teatral de Wajdi Mouawad – é bem construído, mas a habilidade com a câmera e com os sons também fazem a diferença para Incêndios. Não são raros os momentos em que, apesar de seus deslizes, o espectador se flagra admirando a beleza plástica do filme, que se encaixa com sutileza com a trama.

Para contar a sua história, Villeneuve entra em assuntos polêmicos, como a intolerância religiosa, o preconceito, o machismo, mas sem perder o seu foco. O cineasta divide Incêndios em dois. No primeiro, Jeanne e Simon fazem suas buscas. No segundo, Nawal vive aquilo que os irmãos um dia terão de descobrir. A junção das duas histórias marcam a força do longa-metragem de mais de duas horas de duração, que pouco a pouco mostra para o espectador a dureza de uma vida e como é possível apagar qualquer tipo de mágoa através do tempo.

Incêndios (Incendies, 2010, Canadá/França)
Direção:
Denis Villeneuve
Roteiro: Denis Villeneuve e Wajdi Mouawad
Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette
130 Minutos

Bravura Indômita (True Grit)

Fãs notórios do faroeste, os irmãos Ethan e Joel Coen várias vezes flertaram com o gênero, mas nunca chegaram a fazer um filme que pudesse ser rotulado desta forma. Ganhadores do Oscar por Onde Os Fracos Não Têm Vez, considerado um faroeste por muitos, eles mesmos foram os primeiros a dizer que não, já que o filme se passa na época atual, quebrando uma das regras do gênero. Desta vez, porém, os Coen buscaram inspiração em um clássico da década de 1960 para, finalmente, mergulhar no tipo de filme que tanto adoram, recriando Bravura Indômita.

No final do século XIX, a amargurada Mattie Ross (Hailee Steinfeld) recorda um importante episódio de sua juventude que mudou profundamente a sua vida. Aos 14 anos, já responsável pelas finanças da família, a garota tem que tratar da remoção do corpo de seu pai, assassinado por um ex-empregado durante uma viagem de negócios. Clamando por justiça, ela percebe que dificilmente Tom Chaney (Josh Brolin), o responsável pelo crime, será punido, já que ele fugiu com um famoso bando criminoso para uma área indígena, onde apenas agentes federais podem fazer valer a lei.

Determinada, Mattie contrata os serviços do mais destemido destes homens, o Delegado Rooster Cogburn (Jeff Bridges), para que ele faça justiça. Logo, no entanto, eles encontram LaBoeuf (Matt Damon), um Texas Ranger que busca uma grande recompensa pela captura do mesmo criminoso. Apesar das grandes diferenças, os três partem em uma jornada pelo território indígena atrás de Chaney. A convivência destas três pessoas tão diferentes, em uma missão tão difícil, cria uma profunda relação entre eles. E mais do que apenas lutar pela punição de Chaney, eles vão perceber que não sairão ilesos desta aventura.

Logo no cartaz, os irmãos Coen fazem questão de dizer que “a punição virá de uma forma ou de outra”. E eles não estão dizendo apenas para o vilão Tom Chaney, mas para todos. Assim como acontece com a grande maioria dos personagens criados pelos cineastas, neste filme todos tem suas culpas. Mesmo Mattie, que parece uma ingênua criança, mostra seu lado cruel já no início da obra, quando assiste ao enforcamento de três condenados e deseja o mesmo para o assassino de seu pai. Não há quem se salve, a moral de cada um dos três é tão duvidosa quanto a do assassino que perseguem.

Filmado pela primeira vez em 1969, por Henry Hathaway, Bravura Indômita é uma adaptação da obra de Charles Portis, do ano anterior. Na versão original, protagonizada por John Wayne e com a participação dos jovens Dennis Hopper e Robert Duvall, fica ainda mais clara esta moral duvidosa. Se os Coen são conhecidos por sua crueldade contra os seus próprios personagens, desta vez eles foram benevolentes, principalmente com LaBoeuf, que se ausenta em momentos importantes do filme. Mesmo que outros personagens sofram a mais por isso.

Deixando de lado a violência explícita, tão comentada em Onde Os Fracos Não Têm Vez, os Coen colocam o humor negro como principal traço pessoal em sua primeira incursão autêntica pelo faroeste. Com todos elementos típicos ao gênero, os cineastas apostaram em piadas sádicas, mesmo que sutis, ao longo da trama, como marca autoral. O estilo, considerado por Clint Eastwood como uma das únicas artes genuinamente americana, ganha fôlego novo com a dupla de diretores, que também podem ser considerados entre os maiores representantes do cinema do país no mundo.

Bravura Indômita (True Grit, 2010, EUA)
Direção:
Ethan Coen e Joel Coen
Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen
Elenco: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges e Matt Damon
110 Minutos

O Discurso do Rei (The King’s Speech)

O rigor britânico faz parte de todo o filme O Discurso do Rei, de Tom Hooper, que estreia nesta sexta-feira (11) como o grande favorito ao prêmio principal no Oscar 2011. Contando a curiosa história do pai da Rainha Elizabeth II, o longa caminha com maestria do início ao fim sem erros, mas também sem qualquer grande ousadia cinematográfica ou dramatúrgica. A opção que o coloca no primeiro lugar das listas de melhor filme, também faz com que seja facilmente esquecido pelos mesmos que o preferiram.

Desde os primeiros anos de vida, o príncipe Albert Frederick Arthur George (Colin Firth) sofre com o problema de gagueira. Humilhado por Edward (Guy Pearce), seu irmão mais velho, e pelas babás que deles cuidavam, o jovem ainda recebia do pai um duro tratamento. Suas dificuldades nestas relações fizeram com que ele se tornasse cada vez mais inseguro. Com o advento de novas tecnologias, e a necessidade da Família Real britânica ter que se comunicar com o povo através de rádio e auto-falantes, a dificuldade de fala da Albert se tornou um problema ainda maior e mais visível.

Ajudado pela esposa (Helena Bonham Carter), ele vai de médico em médico sem qualquer resultado positivo para se livrar da gagueira, até que eles conhecem o terapeuta da fala Lionel Logue (Geoffrey Rush), acusado de usar métodos nada ortodoxos para tratar de seus pacientes. Logo estes métodos começam a surtir efeito no príncipe, que inicia uma amizade com Logue. Porém, com a morte de seu pai, e a recusa do irmão em ser rei, Albert terá que assumir o trono da Grã-Bretanha, e ainda lidar com um grande desafio, a iminência da Segunda Guerra Mundial.

Ao lado do sempre impecável Geoffrey Rush – que mais uma vez auxilia um monarca inglês com seu personagem – Colin Firth fez uma elogiada atuação. Mas não apenas seu trabalho deve render ao ator seu primeiro Oscar. Se ele não faz uma interpretação tão vibrante quanto a de Javier Bardem, de Biutiful, ou de James Franco, em 127 Horas, tem em contrapartida o fato de quase ter sido premiado em 2010 por O Direito de Amar. Após dar a estatueta para Jeff Bridges, de Coração Louco, a Academia de Hollywood sente a necessidade de premiar Firth neste ano.

Não há pontos fracos em O Discurso do Rei, assim como os seus pontos fortes também não chegam a empolgar, tornando o filme nada mais do que um bom trabalho. Se outros concorrentes ao prêmio mais comentado do mundo do cinema são melhores do que o filme de Hooper, este leva vantagem por não ter estes momentos ruins. É um filme inglês, no que de melhor e pior isto possa significar. É frio, correto, bem desenhado, sem altos e baixos. Se hoje ele é o que tem a maior chance de levar o prêmio principal, amanhã poucos são os que vão comentar sobre sua relevância à sétima arte.

O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010, Inglaterra/EUA)
Direção:
Tom Hooper
Roteiro: David Seidler
Elenco: Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter
118 Minutos

Rio Congelado

Há em Rio Congelado, filme de estréia de Courtney Hunt, uma grande semelhança com o nacional Linha de Passe, último filme de Walter Salles Jr.. Em ambos, uma mãe solteira têm que ser forte para cuidar da família apesar do ambiente ríspido e das adversidades financeiras. Se no brasileiro, parte das dificuldades vinham do fato de Cleuza viver com seus quatro filhos na periferia paulistana, no estadunidense é frio próximo à fronteira com o Canadá que atrapalha ainda mais a sobrevivência de Ray e seus dois filhos.

Abandonada recentemente pelo marido, Ray precisa urgentemente de uma grande quantidade de dinheiro para pagar a prestação da casa que compraram juntos, sob o risco de perder a propriedade. O valor, que já estava guardado, foi roubado pelo pai de seus filhos, que sumiu sem dizer para onde. Em uma tentativa de encontrar o ex-companheiro, ela conhece Lila, uma índia Mohawk que trabalha como coiote, ajudando estrangeiros a entrarem ilegalmente no país através de terras da reserva. Desesperada para dar sustento aos filhos, Ray aceita ajudá-la.

Em ambos os filmes, as dificuldades fazem com que a família caminhe em uma corda bamba entre o legal e o ilegal, pendendo ora para cada lado. Não apenas a mãe de Rio Congelado flerta com a criminalidade, mas também o filho mais velho, TJ, na ingênua tentativa de dar ao irmão um simples presente de natal. Enquanto isso, as duas mães, Ray e Lila, complementam seus salários atravessando o rio do título, com o porta-malas ocupados por chineses ou paquistaneses. Não há a má intenção em nenhum dos casos, de qualquer filme, apenas uma questão de necessidade, de sobrevivência.

Nas duas histórias, o que há de sobra é a garra da mãe, que precisa enfrentar os problemas sem deixar o peso da maternidade derrubá-las. Cleuza rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz em Cannes, Ray teve como resultado uma indicação ao Oscar para Melissa Leo. Ambas desconhecidas pelo grande público, mas merecidamente reconhecidas pelo grande trabalho. A impressionante atuação da mãe que só quer criar seus filhos é de uma pungência que chega a apertar o peito na simples lembrança da história.

Courtney Hunt escreve e dirige seu filme de estréia com tanta emoção que não é de se admirar que já conquiste uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. E, ao contrário de outros casos, desta vez se pode garantir que seu nome na lista é mérito próprio, e não por ter trabalhado antes em clubes de stripper ou algo do tipo. O filme está longe da perfeição. A projeção digital chega a incomodar por vezes, e certos clichês quebram momentos de profunda emoção. Mas, esses momentos existem e batem forte, o que fazem de Rio Congelado um pequeno grande filme.

Rio Congelado (Frozen River, 2008, EUA)
Direção:
Courtney Hunt
Roteiro: Courtney Hunt
Elenco: Melissa Leo, Misty Upham, Charlie McDermott
97 Minutos

Milk – A Voz da Liberdade

Há certos cineastas que eu realmente não consigo entender todo um endeusamento em cima deles. São diretores bons, reconheço, mas que me parecem superestimados pelos motivos errados. É o caso por exemplo de David Lynch, que tem ótimos filmes, mas que ultimamente tem sido cultuado por bobagens sem sentido – pelo menos ao meu ver. Outro caso é o de Gus Van Sant, que ficou famoso principalmente por um equivocado Elefante. Voltando a um cinema mais tradicional, o diretor aparece agora com Milk – A Voz da Liberdade.

Conhecido defensor de minorias, Harvey Milk foi o primeiro político estadunidense eleito apesar de ser homossexual assumido, ainda nos anos 70. Pouco depois, no entanto, é assassinado por um adversário. Quem dá corpo ao personagem é Sean Penn, que também entra com a alma no filme e muitas vezes se esquece de quem é que está na tela. Macho daqueles que bate na esposa, como já foi divulgado, o ator se entrega ao papel chegando quase a ultrapassar a barreira para um esteriótipo. Mesmo concorrendo com Mickey ‘Volta por Cima’ Rourke, Penn tem toda chance de levar o Oscar para casa.

Ao contrário dos últimos trabalhos de Van Sant, Milk até experimenta, mas não deixa que isto seja maior que a própria história do filme. A maior dessas ousadias, na verdade, nem é tão inovadora. Se tratando de um fato real, o diretor abusa de imagens de arquivo da época e mesmo de fatos retratados na história. Porém, neste caso, a fotografia granulada e opaca consegue deixar estas cenas documentais mais próximas do filme, sem ser apenas meras ilustrações e fazendo parte da narrativa.

A principal vantagem do filme sobre os últimos é que ele conta algo, seu roteiro é concreto, não apenas mostrando fatos. Além disso, também ao contrário deles, Milk não tenta justificar os atos de seus personagens – todos reais – por uma homossexualidade reprimida, como já havia acontecido em Elefante e em Últimos Dias, sob o pretexto de não assumir a responsabilidade de contar a vida dos assassinos de Columbine ou de Kurt Cobain.

Acredito que muitos dos fãs de Gus Van Sant vão sair decepcionados da sala de cinema, talvez até acusando seu ídolo de ter se vendido a um tal sistema careta. Não vejo, no entanto, qualquer traço careta em Milk, que defende não apenas os homossexuais, como qualquer minoria, e defende a “saída do armário” para que o mundo perceba que não há como tentar fugir de um problema que está apenas na cabeça de muitos. A união de um bom diretor, um grande ator e um roteiro coeso, permite ao mundo tentar entender melhor as razões de Harvey Milk.

Milk – A Voz da Liberdade (Milk, 2008, EUA)
Direção:
Gus Van Sant
Roteiro: Dustin Lance Black
Elenco: Sean Penn, Emile Hirsch, James Franco.
128 Minutos

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