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A Inquilina (The Resident)

A mente humana é capaz de nos levar muito longe, de acordo com os nossos sentimentos. Dentre eles, a solidão está entre os que podem transformar os homens tanto em seres frágeis, como em grandes monstros. E é a solidão que está no centro da narrativa do terror A Inquilina, do finlandês Antti Jokinen. Protagonizado por Hilary Swank, o longa não chega a ser uma obra assustadora, mas não desagrada quem gosta do gênero.

Hilary é Juliet, uma médica solitária que não sabe bem o rumo a tomar depois de ser traída pelo namorado em sua própria cama. Decidida a mudar de casa para esquecer do passado, ela busca um apartamento em que possa recomeçar. Apesar da dificuldade em se achar um bom lugar para morar, ela encontra um local perfeito, no prédio da família de Max (Jeffrey Dean Morgan), que vive com seu estranho avô August (Christopher Lee). Logo, no entanto, ela percebe que o que parecia ideal, pode ser um grande pesadelo em sua vida.

Como se espera de um filme de terror, principalmente destas novas safras, A Inquilina é cheio de pegadinhas no roteiro para tentar dar um nó na cabeça do espectador. Não que funcionem. Não demora muito para se perceber as surpresas que o filme têm a revelar, e mesmo na trama são rápidas as soluções encontradas para apresentá-las ao público. Após estas surpresas iniciais, no entanto, o filme acaba descambando para os sustos e a violência nas cenas.

Em um filme de terror, também não se pode faltar a sensualidade de sua atriz principal, e desta vez não é diferente. Mesmo que Hilary Swank esteja bem longe de ser uma sex symbol, as câmeras comandadas por Jokinen fazem da atriz muito mais atraente. Com cenas ousadas, mas nem um pouco vulgares, o diretor consegue um ótimo resultado sem precisar de muito. Ao lado de Swank, Jeffrey também desenvolve bem o papel do galã misterioso, mesmo sem perder o seu ar de Robert Downey Jr.. Além dos dois, o eterno Drácula, Christopher Lee, dá um ar ainda mais sombrio ao filme.

Com um bom elenco, e uma direção sóbria e, muitas vezes, eficiente, A Inquilina acaba compensando algumas de suas falhas por um roteiro sem grandes conflitos, mas é uma pena que se aproveite mal este elenco e as situações criadas pela própria história. Se pela trama não se pode esperar tanto da obra, ao menos o espectador pode ver nas telas um trabalho bem realizado e com alguns pontos positivos, que mesmo que não seja nenhum grande filme, não é motivo para se pedir o dinheiro do ingresso de volta.

Assista ao trailer:

A Inquilina (The Resident, 2011, Inglaterra/EUA)
Direção:
Antti Jokinen
Roteiro: Antti Jokinen
Elenco: Hilary Swank, Jeffrey Dean Morgan e Christopher Lee
91 Minutos

Jogos Mortais 3D – O Final (Saw 3D)

Se a franquia Jogos Mortais iniciou abusando do terror psicológico com doses de sadismo, sua última parte inverte a proposta e apresenta um filme sangrento com pitadas de história no meio do roteiro. Jogos Mortais 3D – O Final amarra a série e coloca um ponto final, mesmo assim não convence.

Apresentado como o último filme da série, a sétima parte traz de volta personagens conhecidos do público, como Hoffman (Costas Mandylor), Dr. Gordon (Cary Elwes), a viúva de Jigsaw, Jill (Betsy Russell), e até o grande psicopata (Tobin Bell) que idealizou as torturas e mortes para convencer as pessoas a valorizar suas vidas.

Desta vez, a vítima principal é o escritor de auto-ajuda Bobby (Sean Patrick Flanery), que ganhou fama e fortuna ao escrever um livro contando sua história de superação depois de ter sobrevivido aos jogos de Jigsaw. A forma como faz, no entanto, não apenas irrita outras vítimas do torturador, mas também seus seguidores.

O escritor então é colocado em uma grande prova para mostrar que realmente é digno de explorar o serial killer através de seus livros. Ao mesmo tempo, Jill pede proteção à polícia em troca de contar tudo sobre o homem que está por trás dos jogos desde que o seu marido morreu. Agora, além de proteger a viúva, a polícia tem que tentar encontrar Bobby antes que seja tarde.

A opção do 3D não influi em quase nada no filme. Raros são os momentos em que os efeitos são percebidos no decorrer da trama. Mesmo assim, o espectador quase precisa de uma proteção para não se sujar com o banho de sangue que acontece na tela. Ao contrário dos primeiros filmes, a última parte dá closes nas sequências mais violentas, que não são poucas.

Já no começo, o diretor Kevin Greutert (de Jogos Mortais 6) já mostra a que veio. Três jovens são colocados em uma máquina de tortura em uma vitrine, em uma rua movimentada. O momento reproduz o que é o filme: uma exibição de tortura para ser apreciada com detalhe por um público sádico.

A opção por exagerar nas cenas sangrentas, no entanto, deve ter feito com que deixassem de lado a inventividade do começo da série. Apesar de amarrar de um modo criativo desde os primeiros filmes, Jogos Mortais 3D – O Final não chega à altura deles. Mesmo concluindo a saga, não seria de se admirar que logo venha um oitavo filme.

Originalmente publicado no Portal Terra.

Jogos Mortais 3D – O Final (Saw 3D, 2010, EUA)
Direção:
Kevin Greutert
Roteiro: Patrick Melton e Marcus Dunstan
Elenco: Tobin Bell, Costas Mandylor e Betsy Russell
90 Minutos

A Órfã

Há diferentes formas de um filme se tornar polêmico. Dentre as mais clássicas, há duas divisões bem claras para aqueles mais acostumados em assistir todo tipo de gênero. Há as obras que defendem uma causa que ainda é considerada tabu na sociedade. Ao fazer isto, acaba atraindo acaloradas discussões e a atenção da mídia. E existem, também, aqueles filmes que preferem o caminho inverso. Com a intenção de conquistar grandes bilheterias, fazer fama rápida e ter a atenção da mídia, escolhem temas polêmicos. Este parece ser o caso de A Órfã, do diretor espanhol Jaume Collet-Serra, de Casa de Cera.

No enredo, o jovem casal Kate e John acaba de sofrer uma grande perda quando ela aborta. Apesar de já terem dois filhos, os dois acreditam que aquele amor que dariam ao terceiro pode ser usado para alguma outra criança, assim decidem adotar. A escolhida é Esther, uma talentosa menina de nove anos, que aos poucos demonstra não ser exatamente quem todos imaginam. Dissimulada e maquiavélica, a garota consegue manipular todos à sua volta, jogando um contra o outro, sem que ninguém perceba que é ela quem está por trás das brigas. Quando não consegue o que quer, ela também não tem pudores em matar seus adversários.

Assim que o longa foi lançado nos EUA, organizações pró-adoção se manifestara, pedindo o boicote da obra. Todos alegavam que aquele filme apenas desestimularia os futuros pais a adotarem crianças, ainda mais as mais velhas, que tem mais dificuldade em conseguir uma família. Como toda manifestação contrária, esta apenas serviu para que o filme se tornasse manchete em todo o mundo, conquistando uma publicidade gratuita enorme, que terá como resultado exatamente o oposto do que as organizações desejam. A obra será ainda mais vista.

Assim como tantos outros casos parecidos, um filme que não tinha nenhum potencial passa a ser um grande produto por conta de manifestações contrárias. Não há muito o que se salve em A Órfã. Como filme de terror, é um desastre. A maior parte dos sustos que a plateia possa tomar, provém apenas de pegadinhas ao espectador, seja com músicas tensas, som mais alto do que o normal, ou clichês, como em uma cena logo no início do filme. Kate está sozinha no banheiro, abre uma porta espelhada, quando fecha novamente percebe que tem alguém atrás de si: seu próprio marido.

Até há questões interessantes no roteiro. Durante todo o filme se especula sobre um passado sombrio de Kate. Além disso, a filha do casal, Maxine, é surda e não se deixa claro o porquê. No entanto, não adianta o espectador aguardas explicações, elas não vêem. Talvez por preguiça do roteirista, o filme prefere ficar apenas no superficial, com uma história fraca, de mau gosto e boba. Mas, afinal, para que a preocupação com um bom roteiro, se as organizações pró-adoção já vão dar todo o público que o filme quer ter?

A Órfã (Orphan, 2009, EUA)
Direção:
Jaume Collet-Serra
Roteiro: David Johnson
Elenco: Isabelle Fuhrman, Vera Farmiga, Peter Sarsgaard
123 Minutos

Arraste-me Para o Inferno

Não há mais inocência no mundo. Depois de 11 de setembro, da guerra de Bush contra o terror e da crise mundial financeira que assola grande parte dos países nos últimos meses, o Planeta Terra está cada vez mais cru e sórdido. Nos cinemas é possível ver bem isto. Mesmo a Disney, que alimentou ilusões em todo o globo com seus contos de fadas, veio com Encantada, a história da princesa que literalmente cai na real e percebe que a vida não é tão perfeita assim. Depois do cinema infantil, só restava a inocência acabar nos filmes de terror. E é justamente o que acontece em Arraste-me Para o Inferno, a volta de Sam Raimi ao gênero depois de atingir o sucesso com Homem Aranha.

Com uma estética anos 80, remetendo ao seu sucesso Evil Dead, o diretor conta a história de Christine Brown, uma jovem recém-chegada do interior que almeja uma carreira de sucesso no sistema financeiro dos EUA. Trabalhando no setor de empréstimos de um banco, prestes a se tornar assistente da gerência, ela recebe a visita de uma velha senhora que lhe pede mais prazo para o pagamento da hipoteca. Para não perder a chance de conseguir a promoção, ela nega o pedido. A mulher, no entanto, é uma cigana, que amaldiçoa Christine. Agora, sua alma está na mão de um espírito do mal, que aterrorizará sua vida e a levará ao inferno em três dias.

Pelo menos isto é o que se percebe à primeira vista. Mas as coisas não são tão simples assim. Existem muitas nuances por trás deste novo filme de Raimi, coisas que passariam despercebidas facilmente, mesmo numa época como esta, mas que um olhar mais atento revela. Já é fácil perceber que existe algo bem diferente na obra. Ao contrário da maioria dos longas do gênero, principalmente estes dos anos 80, a protagonista não é uma moça boazinha, incapaz de qualquer tipo de maldade. Christine poderia ter sido assim em um passado remoto, mas a vida lhe ensinou a deixar de sentimentalismos e pensar no lado prático das coisas.

Uma protagonista que comete crueldades, como assassinar seu próprio gato de estimação, talvez mereça ser arrastada para o inferno através desta maldição que caiu sobre ela. Mas pode ser que não seja bem isso que o diretor quis dizer quando deu este título à obra. Christine era uma boa moça do interior, mas ao chegar à cidade grande foi fuzilada pelo “american way of life”. Gordinha, ela precisou emagrecer e se adaptar aos padrões de beleza vigentes. Na vida profissional, precisa ter sangue frio para lidar com a vida das pessoas, sem se preocupar com o caos que sua ação pode desencadear para famílias simples. No amor, tem um relacionamento com um jovem de boa índole, mas precisa provar aos pais dele que é a mulher ideal, aquela que vai fazê-lo crescer pessoal e profissionalmente, e não uma moça qualquer da fazenda.

Não é por culpa da velha cigana que Christine se torna uma pessoa vil, ela já era antes da mulher aparecer em sua vida. Esta, apenas foi o gatilho que definiu o futuro da jovem a curto prazo: ser arrastada para o inferno. A executiva ainda resiste em cometer estes atos cruéis, a princípio, mas a pressão que sofre no banco, na família de seu namorado, na sociedade, dá forças para que ela perca seu coração. Não existe uma maldição cigana nesta história. Os demônios que a garota enfrenta, são bem mais reais do que fantasmas de filmes de terror. É o modo de vida das capitais, o sistema financeiro norte-americano, que está arrastando a todos, cada vez mais, para o inferno.

Arraste-me Para o Inferno (Drag Me to Hell, 2009, EUA)
Direção:
Sam Raimi
Roteiro: Sam Raimi e Ivan Raimi
Elenco:
Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver
99 Minutos

Encarnação do Demônio

Depois do acidente com Morgan Freeman, muitos estão falando sobre uma possível maldição do filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, que já perdeu o ator Heath Ledger e um técnico de efeitos especiais. Comparando com o que já viveu o cineasta brasileiro José Mojica Marins, isto não é nada. Maldições são constantes nos filmes do diretor, que já chegou a ver morrer duas atrizes para o mesmo personagem de um longa que até hoje não foi completado. Não foi muito diferente para o novo, Encarnação do Demônio.

O roteiro, que foi escrito em 1966, antes do lançamento do segundo filme da trilogia, Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver, iria ser filmado logo em seguida, não fosse a intromissão do Regime Militar. A censura não permitiu a feitura da terceira parte, já que o personagem é categoricamente contra a Igreja Católica. Após o projeto ser engavetado por quase uma década, uma nova esperança. Um produtor americano se interessou por levar às telas a história. Como era americano, ele podia.

Antes que tudo tivesse decidido, o homem faleceu de um câncer, e o projeto voltou para a gaveta. Mais dez anos e um novo produtor, um espanhol, decide filmar Encarnação do Demônio. Desta vez foi o coração que levou as esperanças de Mojica. Nos anos 90 foi um produtor brasileiro quem convenceu o cineasta retomar seu roteiro maldito e já desacreditado. Tudo estava indo muito bem, mas, sem grandes surpresas, este também veio a perder sua vida, de emoção, segundo o próprio diretor. Apenas na última década que o filme conseguiu sair do projeto finalmente, em uma produção corajosa de Paulo Sacramento.

O resultado nas telas foge muito do que era o Zé do Caixão dos anteriores À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver. O que era apenas implícito nos filmes anteriores, neste se torna bastante sanguinolento. A influência de filmes como Jogos Mortais é óbvia, sem sair do universo do personagem, um cético que só acredita na continuidade do sangue. José Mojica Marins não teve grande dificuldade em conseguir adaptar o personagem, e a narrativa, aos novos tempos. Se não for vítima de preconceito, o filme tem grandes chances de ser bem sucedido, encerrando de vez a maldição.

O que mais incomoda nisto tudo, no entanto, é a possibilidade. A censura dos anos 60 não enxergou no Mojica o homem crente que é, nem no Zé do Caixão o vilão dos filmes, indicando uma limitação crítica incrível. Limitação maior, no entanto é o que isto surtiu na carreira do cineasta. Se após tantos anos sem filmar, Mojica conseguiu habilmente, e com poucos recursos, se apropriar do que mais faz sucesso no cinema do gênero em todo o mundo, quem pode imaginar o que seria de sua carreira se não tivesse sido podada por uma ditadura artisticamente ignóbil. Esta sim, foi a verdadeira maldição.

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