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Vício Frenético (The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans)

Para certos cineastas, antes mesmo de suas obras se tornarem conhecidas já se prevê que algo fora da normalidade está por vir. O alemão Werner Herzog, cercado de um universo polêmico e controverso, certamente é um destes diretores. Ele é do tipo de artista que, por exemplo, surpreenderia a poucos se fosse baleado com um tiro de pressão durante uma entrevista ao vivo para a televisão, fato que realmente aconteceu em 2006. Quando Herzog diz, então, que irá refilmar Vício Frenético, clássico de 1992, de Abel Ferrara, sem ao menos ter visto a obra original, é de se esperar duas coisas: genialidade e estranhamento.

Do primeiro filme, este só tem o nome e a ideia de um protagonista policial viciado em drogas. De resto, o longa estrelado por Harvey Keitel nada tem de semelhante deste novo, protagonizado por Nicolas Cage. O ator, aliás, foi definitivamente a melhor escolha que Werner poderia ter feito para o seu Vício Frenético. Seu aspecto natural de um sujeito frustrado, aliado aos inúmeros problemas pessoais que o ator vem enfrentando, certamente foi fator decisivo para a sua excelente atuação como o homem centrado que perde o controle de sua própria vida após ser obrigado a viver refém do anestésico Vicodin, o mesmo que matou recentemente o cantor Michael Jackson.

Na história, Cage é o Tenente Terence, que após salvar um criminoso de uma enchence causada pelo Katrina fica com um grave problema na coluna. Em pouco tempo, a necessidade de se medicar constantemente, junto com sua estressante rotina de policial e o acesso fácil a traficantes, faz com que ele se vicie não apenas no remédio, mas também em cocaína. Policial exemplar, seu novo habito faz com que ele tome atitudes extremas para conseguir cumprir suas missões, como chegar perto de torturar duas idosas inocentes para descobrir o paradeiro de uma testemunha, neto de uma delas.

A redenção, para Terence, virá se ele conseguir solucionar determinado crime e punir seus culpados. Na periferia de Nova Orleans, uma família de haitianos foi assassinada, e tudo indica que o responsável foi o chefe do tráfico local, Big Fate. A resolução seria muito mais simples, claramente, se não fosse o vício do policial, e o fato de que, para proteger sua namorada, uma garota de programa, ele humilhou o filho de um poderoso homem. Nas mãos de Herzog, ainda, toda a história toma ares muito mais surreais, com direito a uma hilária cena em que, no meio da investigação, Terence é confrontado por iguanas imaginárias.

Não se pode esperar o comum de um diretor que já deu ao cinema obras como O Enigma de Kasper Hauser ou O Homem Urso, e o comum passa mesmo longe de Vício Frenético. O drama do personagem é muitas vezes atropelado pela excentricidade do diretor, que, neste caso, acaba tornando tudo mais leve e cômico. Ver o filme vai além de acompanhar uma simples história com começo, meio e fim, mas embarcar nesta história sob lentes que subvertem o esperado. Herzog sabe bem fazer filmes para um público médio, hollywoodiano, mas dando a ele a margem para o imprevisto, para o improvável.

Vício Frenético (The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans, 2009, EUA)
Direção:
Werner Herzog.
Roteiro: William M. Finkelstein.
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes e Val Kilmer.
122 Minutos

O Sobrevivente

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Apesar de ser mais reconhecido e bem-sucedido por seus filmes de ficção, o cineasta alemão Werner Herzog nunca decidiu qual seria o seu foco, este ou os documentários. Agora, com seu novo O Sobrevivente, ele une um pouco mais os dois gêneros, ao refilmar com Christian Bale, a história que já havia tratado em Little Dieter Needs to Fly, há dez anos. Tanto na versão de ficção, quanto no documentário, Herzog foi ao limite para dar veracidade aos fatos.

A história real de Dieter Dengler acontece em 1966, quando ele, então com apenas 18 anos, se alista para ser piloto da marinha americana durante a Guerra do Vietnã. Em uma missão mal-sucedida, ele cai em meio à selva do Laos, cercado de soldados inimigos, tendo de fazer de tudo para sobreviver. Sua fuga não dura muito, já que logo é capturado e levado a um campo de concentração onde já estavam alguns outros prisioneiros americanos. Mais do que sobreviver aos destratos do local, o grupo terá que lutar para manter o que resta de sua sanidade.

Ao fazer Little Dieter, com o próprio protagonista dos acontecimentos, 30 anos depois, Herzog já demonstra sua vontade em atingir o limite das cenas. O diretor chegava a obrigar Dengler a reencenar algumas lembranças traumáticas daquele tempo. Em O Sobrevivente, isto não muda, apenas a vítima do cineasta que se torna Christian Bale. Não só o personagem da ficção, mas o personagem real e o próprio ator podem ser considerados sobreviventes ao trabalhar com o excêntrico alemão.

Nas cenas, percebemos que Bale foi obrigado a comer vermes vivos, a ter sua pele coberta por sanguessugas, além de ter que emagrecer de forma assustadora para viver a segunda fase do personagem. A dieta, aliás, não é novidade para o ator, que já havia feito coisa parecida em O Maquinista, com quase tanto elogio como agora. Porém, desta vez a atuação foi mais aclamada, principalmente pelo empenho de Herzog em testar o astro. Não é de se assustar, já que em seu último filme, O Homem Urso, o diretor apresenta um antropólogo que é morto pelo animal que estava estudando.

O Sobrevivente foi desqualificado por parte da crítica, por ser considerado muito lento e arrastado. Talvez, no entanto, este possa ser seu grande trunfo, já que é um filme que trata do limite, antes de qualquer coisa. O limite do personagem em tentar sobreviver à prisão numa terra distante; do ator, ao se submeter ao rigor excessivo de um cineasta obcecado; do diretor, que precisa fazer a ficção se sobrepor aos fatos, tornando o filme mais contundente do que o documentário; então também da platéia, ao acompanhar tudo de sua confortável poltrona.

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