O Grande Chefe

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Dentre os cineastas vivos com trabalho mais autoral hoje em dia, está o dinamarquês Lars Von Trier. Experimental, ou experimentador, o cineasta de 50 anos está sempre criando regras e movimentos, mas não se incomoda em destruir tudo logo em seguida. Foi o que aconteceu com o Dogma 95, pelo qual sempre é lembrado e que lhe deu maior visibilidade. Logo no segundo filme, Dançando no Escuro, já rompeu o que havia escrito em prol de um cinema alternativo, criando um musical. Seu novo longa, O Grande Chefe, se aproxima de seu manifesto, mas vêm com uma nova proposta.

Emotivo como são os dinamarqueses, Ravn não quer que seus funcionários fiquem insatisfeitos com ele, apesar de suas medidas bastante impopulares. Isto o faz criar um suposto superior, que daria as ordens. Um dia, este é requisitado e o verdadeiro chefão tem que contratar Kristoffer, um ator que representaria este chefe, para vender a empresa. Percebendo as manobras de seu diretor, o artista vai além do que é pedido e começa a usar o personagem a favor do que ele quer.

A relação entre um diretor e um ator não poderia ser mais óbvia para um retrato do próprio Trier, que aliás aparece algumas vezes no filme. Tanto o diretor da ficção quanto o real são manipuladores. Ambos usam seus atores para criar uma realidade em torno deles que não existe, mas que faz com que todos ao redor os ame. Recentemente saiu uma entrevista em que Lars disse estar deprimido e não sabe quando filma novamente. Talvez este endeusamento de sua figura, mesmo com essa sua ação clara de jogar com o expectador, o incomode.

Se for assim, O Grande Chefe não é mais que um pedido de desculpas, seguidos de uma tímida declaração de que não vai mudar. Em suas poucas aparições no filme, sua voz vem acompanhada da sua imagem no reflexo dos vidros do cenário. É como se ele dissesse aos fãs que aquilo é ele, que o filme é como uma tentativa de uma auto-biografia do momento. Além disso, quem controla os movimentos de câmeras e a edição não é ele ou qualquer membro da equipe. Ele e o fotógrafo apenas enquadra o começo das cenas e um programa de computador faz todo o resto do trabalho, sem dar chances para alterações posteriores.

Em um paradoxo, Lars Von Trier passa sua função para uma máquina e, assim, faz o seu filme mais autoral. De volta à uma comédia, que não fazia há mais de dez anos, de volta ao seu país, a Dinamarca, filmando com atores locais e em seu idioma nativo, e voltando a um cinema mais simples, sem a grandiosidade dos últimos filmes, como Dogville, o cineasta acaba deixando de lado sua rixa com os EUA e mostrando um pouco mais de si. Não a toa, este é o primeiro filme dele em que a estréia acontece na Dinamarca.

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