Arquivo para novembro \30\UTC 2010

O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy)

Quem espera encontrar uma cinebiografia musical em O Garoto de Liverpool pode se decepcionar com o drama familiar do jovem John Lennon (Aaron Johnson), mas o filme de Sam Taylor-Wood traz um retrato sincero do adolescente que sonhava ser um astro do rock. Na obra, em vez do Lennon politizado e centrado, o diretor mostra o jovem que era mais preocupado em curtir a vida do que em ser um profissional como músico.

No longa fica claro o que é perceptível nas gravações antigas dos Beatles mas que se apagou com o tempo. Paul McCartney (Thomas Brodie-Sangster) era o cabeça do quarteto, enquanto Lennon era o coração. Bem antes de encantar o Brasil com seus shows lotados e cheios de energia, o músico rouba a cena já aos 15 anos, com sua determinação em dominar a técnica musical e alcançar o sucesso profissional.

Lennon, no filme, mostra de onde veio o tino para tocar o mundo. Na adolescência, ele mal sabia quem eram seus pais, já que havia sido criado por uma rigorosa tia (Kristin Scott Thomas), que não queria que o garoto fosse mal influenciado pela verdadeira mãe (Anne-Marie Duff). A influência, no entanto, veio assim mesmo. Enquanto Mimi, a tia, ensinava disciplina e música clássica, Júlia, a mãe, mostrava às escondidas sua rebeldia e apresentava ao jovem o que era o rock’n’roll.

Taylor-Wood começa O Garoto de Liverpool brincando com cenas de A Hard Day’s Night, em uma das poucas ousadias estéticas do filme. Tanto na obra de 1964, quanto aqui, John Lennon aparece como uma figura carismática, brincalhona, irreverente. Imagem que se apagou com o tempo após seu engajamento social e o fim dos Beatles.

O grupo não chega a aparecer no filme, que termina no momento de sua criação, em 1960. Nas cenas, Lennon ainda tocava no Quarrymen com Paul, um George Harrison (Sam Bell) que mal se destaca, entre outros amigos. Do historicamente desprezado Ringo Starr, nem sinal, já que ele entraria nos Beatles apenas em 1962. Das canções famosas, também poucas aparecem na trilha, que contém mais obras de artistas como Elvis Presley, ídolo do jovem Lennon.

Sem o lado musical que tornou John Lennon mundialmente reconhecido, o filme ainda tem seus méritos quando mostra a relação dele com suas duas mães, e seus primeiros passos na música. O excesso na carga emocional dos dramas familiares é compensado com a sincera relação entre os jovens John e Paul, além das peripécias do adolescente em seu período escolar. A distribuidora brasileira ainda aproveitou o gancho emocional, lançando o longa próximo às datas em que são lembradas as morte de John Lennon (08/12/1980) e de George Harrison (29/11/2001).

O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy, 2009, Inglaterra)
Direção:
Sam Taylor-Wood
Roteiro: Matt Greenhalgh
Elenco: Aaron Johnson, Kristin Scott Thomas e Anne-Marie Duff
98 Minutos

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger)

Aos 75 anos e mais de 40 filmes no currículo, Woody Allen não precisa provar a ninguém sobre sua capacidade de fazer um bom cinema, mesmo quando o acusam de repetitivo. É o que acontece novamente em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Realizado logo após Tudo Pode Dar Certo, um dos maiores trabalhos do cineasta novaiorquino, o longa retoma temas já conhecidos na filmografia de Allen, e já é mal visto acusado ser mais do mesmo.

Desta vez, uma de suas ousadias, que também pode não agradar o público, foi ter escolhido como a mocinha de seu filme a atriz Gemma Jones, que já está próxima dos 70 anos. Ela vive Helena, uma mulher recém abandonada pelo marido Alfie (Anthony Hopkins), que prefere aproveitar melhor a juventude de sua terceira idade ao lado de outras mulheres. Se em Interiores, de 1978, a esposa largada perde a razão de viver, desta vez a personagem tenta de toda forma descobrir este sentido da vida longe do ex.

E então que surge um dos temas mais recorrentes dentro do trabalho de Woody, a ilusão. Helena decide trocar o racional dos tratamentos psiquiátricos pelas sessões constantes de terapia com uma cartomante, que lhe diz o que toda mulher solitária deseja ouvir: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Enquanto Alfie fica noivo de uma atriz sensual com metade da sua idade, mas pouco caráter, Helena se sente feliz em ter a esperança de ainda ter a chance de viver um grande amor.

Assim como a Cecilia de A Rosa Púrpura do Cairo, ela vive intensamente sua ilusão enquanto todos à sua volta se desesperam com a realidade. Alfie percebe que pode ter cometido um erro, enquanto a filha do casal, Sally (Naomi Watts), não suporta o peso de ter de sustentar o marido, o fracassado escritor Roy (Josh Brolin), que passa os dias em casa para escrever seu novo livro, mas prefere ficar espionando a bela vizinha (Freida Pinto) pela janela. Mesmo ele sendo escritor, no entanto, prefere se apoiar na realidade em vez de acreditar na ilusão que traz felicidade à sogra.

E a realidade, cruel a todos, parece não abalar Helena. Sempre apoiada pela cartomante, ela não teme seu futuro, já que acredita conhecer parte dele. Mesmo tudo indicando que a mulher que a ajuda é uma farsante, ela prefere se agarrar àquela ponta de esperança que lhe é dada a cada sessão. Ela quer apenas seguir em frente, usando aquela sua ilusão como uma forma de aguentar toda a realidade a sua volta, assim como faz Woody Allen, com sua invejável marca de um filme por ano.

Um dos que mais defendem, a partir de suas obras, o conceito de cinema de autor, o novaiorquino não precisa criar enredos mirabolantes e originais para chegar a um filme de qualidade. Se Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos não está entre os melhores longas do diretor, isto não quer dizer que seja descartável. Até porque, um Woody Allen menor ainda é sempre um bom filme.

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010, EUA)
Direção:
Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Gemma Jones, Naomi Watts e Anthony Hopkins
98 Minutos

Muita Calma Nessa Hora

Em um forte renascimento do cinema nacional, com produções locais desbancando filmes estrangeiros de qualidade, ainda é pouca a atenção ao público jovem. Pouco a pouco, no entanto, profissionais como Lais Bodanzky (As Melhores Coisas do Mundo), Ana Luiza Azevedo (Antes que o Mundo Acabe) e Johnny Araújo (O Magnata), chegam para tentar mudar este quadro. É no mesmo caminho que está o produtor Augusto Casé e o cineasta Felipe Joffily, de Muita Calma Nessa Hora.

As referências ao universo jovem são imensas, com ídolos da comédia surgindo quase a cada minuto na tela para chamar ainda mais a atenção do público para este primeiro filme lançado com a assinatura de Bruno Mazzeo. As participações especiais, entretanto, são tão excessivas que, ao mesmo tempo que pode deliciar o público, tira a identidade do texto.

O filme segue o trio de amigas Tita (Andréia Horta), Mari (Gianne Albertoni) e Aninha (Fernanda Souza) em uma viagem de auto-conhecimento para Búzios. Depois da primeira flagrar o futuro marido (Mazzeo) com outra, as três decidem aproveitar a casa alugada para a lua-de-mel. No caminho ainda encontram a mística Estrella (Débora Lamm), que está na cidade para conhecer seu pai.

Juntas, as quatro encontram os mais diversos tipos, como o surfista sarado (Dudu Azevedo), o grupo de amigos sem noção (Hermes & Renato), a drag queen que vende bebida na praia (Luís Miranda), o almofadinha (Marcelo Adnet), o “micareteiro” (Lúcio Mauro Filho), o louco revolucionário (André Mattos), entre tantos outros.

Com tanto astro junto, o filme acaba parecendo mais um especial de humor para a televisão – o que Mazzeo já mostrou saber fazer muito bem – do que um produto para o cinema. Os estereótipos acabam sendo inevitáveis e, muitas vezes, o drama das quatro meninas acabam ficando em segundo plano.

Se o filme peca pela superficialidade em muitos momentos, isso não deve desagradar o grande público, que está querendo conferir esta reunião de estrelas e não buscando um roteiro sólido. Somando mais uma produção para o público adolescente, Muita Calma Nessa Hora apenas cumpre o que promete.

Originalmente publicado no Portal Terra.

Muita Calma Nessa Hora (2010, Brasil)
Direção:
Felipe Joffily
Roteiro: Bruo Mazzeo
Elenco: Andréia Horta, Fernanda Souza e Débora Lamm

Jogos Mortais 3D – O Final (Saw 3D)

Se a franquia Jogos Mortais iniciou abusando do terror psicológico com doses de sadismo, sua última parte inverte a proposta e apresenta um filme sangrento com pitadas de história no meio do roteiro. Jogos Mortais 3D – O Final amarra a série e coloca um ponto final, mesmo assim não convence.

Apresentado como o último filme da série, a sétima parte traz de volta personagens conhecidos do público, como Hoffman (Costas Mandylor), Dr. Gordon (Cary Elwes), a viúva de Jigsaw, Jill (Betsy Russell), e até o grande psicopata (Tobin Bell) que idealizou as torturas e mortes para convencer as pessoas a valorizar suas vidas.

Desta vez, a vítima principal é o escritor de auto-ajuda Bobby (Sean Patrick Flanery), que ganhou fama e fortuna ao escrever um livro contando sua história de superação depois de ter sobrevivido aos jogos de Jigsaw. A forma como faz, no entanto, não apenas irrita outras vítimas do torturador, mas também seus seguidores.

O escritor então é colocado em uma grande prova para mostrar que realmente é digno de explorar o serial killer através de seus livros. Ao mesmo tempo, Jill pede proteção à polícia em troca de contar tudo sobre o homem que está por trás dos jogos desde que o seu marido morreu. Agora, além de proteger a viúva, a polícia tem que tentar encontrar Bobby antes que seja tarde.

A opção do 3D não influi em quase nada no filme. Raros são os momentos em que os efeitos são percebidos no decorrer da trama. Mesmo assim, o espectador quase precisa de uma proteção para não se sujar com o banho de sangue que acontece na tela. Ao contrário dos primeiros filmes, a última parte dá closes nas sequências mais violentas, que não são poucas.

Já no começo, o diretor Kevin Greutert (de Jogos Mortais 6) já mostra a que veio. Três jovens são colocados em uma máquina de tortura em uma vitrine, em uma rua movimentada. O momento reproduz o que é o filme: uma exibição de tortura para ser apreciada com detalhe por um público sádico.

A opção por exagerar nas cenas sangrentas, no entanto, deve ter feito com que deixassem de lado a inventividade do começo da série. Apesar de amarrar de um modo criativo desde os primeiros filmes, Jogos Mortais 3D – O Final não chega à altura deles. Mesmo concluindo a saga, não seria de se admirar que logo venha um oitavo filme.

Originalmente publicado no Portal Terra.

Jogos Mortais 3D – O Final (Saw 3D, 2010, EUA)
Direção:
Kevin Greutert
Roteiro: Patrick Melton e Marcus Dunstan
Elenco: Tobin Bell, Costas Mandylor e Betsy Russell
90 Minutos

%d blogueiros gostam disto: